Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Nos anos 1950, Araçatuba viveu momentos em que o impossível se fez possível. Um ciclista colombiano desafiou os limites do corpo humano, enquanto um casal de acrobatas alemães arriscava a vida entre prédios do centro. A Praça Rui Barbosa foi o palco dessas façanhas que pararam a cidade e entraram para a história.
O ciclista colombiano que desafiou o impossível
Era a primeira semana de 1959. O Brasil comemorava a posse de Juscelino Kubitschek e sonhava com Brasília. Mas enquanto o país olhava para o futuro, Araçatuba vivia o seu próprio momento de glória sobre duas rodas. No dia 2 de janeiro, a cidade foi tomada por um misto de espanto e entusiasmo ao ver o ciclista colombiano Célimo Antônio Montes Zuluaga quebrar o recorde mundial de permanência sobre bicicleta em movimento. O feito integrou as comemorações pelos 50 anos da cidade e virou manchete nacional e memória para gerações.
Zuluaga pedalou sem descanso por 150 horas seguidas, contornando a Praça Rui Barbosa 7.110 vezes, totalizando 3.750 quilômetros, a uma média de 25 km/h. Durante todo o percurso, não desceu da bicicleta nem por um instante: comeu, bebeu e resistiu sobre o selim, desafiando o corpo e a mente. Ao término da prova, havia perdido 6 quilos, mas manteve o sorriso firme de quem vence os próprios limites. E, num gesto inesquecível, ergueu a bicicleta nos ombros e deu uma volta triunfal no Estádio Municipal, sob aplausos e euforia.
A icônica imagem foi publicada nos jornais da época em 3 de janeiro de 1959, registrando o instante em que Araçatuba se tornou palco de um feito digno de figurar entre os maiores da história do ciclismo. Com apenas 24 anos, Zuluaga já rodava o mundo em busca de superações. Mas foi aqui, em Araçatuba, que escreveu uma das páginas mais impressionantes de sua trajetória e colocou a cidade sob os holofotes do esporte mundial.
Os acrobatas alemães que desafiaram o céu de Araçatuba
Poucos anos antes da façanha do ciclista, Araçatuba já vivia outro espetáculo, desta vez, nas alturas. Entre 1957 e 1959, o casal de acrobatas alemães Peter e Marion transformou o centro da cidade em um verdadeiro picadeiro aéreo, misturando arte, risco e coragem. Eles estendiam um cabo de aço entre a torre da antiga Igreja Matriz e o Edifício Paiva, em frente à Praça Rui Barbosa. Ali, realizavam acrobacias sobre bicicletas, equilibrando-se com longas varas. O público se aglomerava, enquanto uma banda acompanhava o show, intensificando a emoção a cada movimento.
Em uma das apresentações, a roda da bicicleta de Peter se soltou em meio a ventos fortes. Ele caiu, mas conseguiu se segurar no cabo e ficou pendurado até ser resgatado. Muita gente pensou que o susto fazia parte do espetáculo, mas o risco foi real. Em outro número, Marion pendia em um trapézio sob a bicicleta pedalada por Peter, enquanto uma corda era segurada pelo comandante dos bombeiros voluntários, o Sr. Esgalha. Um tranco repentino quase a derrubou, mas ela se recuperou com sangue frio e continuou a apresentação como se nada tivesse acontecido.
Aquelas cenas, insanas e fascinantes, marcaram a memória da cidade. A coragem de Peter e Marion desafiava a gravidade e o céu da Praça Rui Barbosa se transformava em palco. Homens, mulheres e crianças lotavam o local, divididos entre o medo e o encantamento. Era um tempo em que a ousadia e o talento pedalavam sobre o fio do impossível, e Araçatuba se tornava cenário de feitos que beiravam a fantasia.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, historiador e autor do Livro: “Memórias de Araçatuba”.

