Alceu Batista de Almeida Júnior
Entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, Araçatuba conheceu um personagem bastante peculiar: Francisco Pereira de Souza, mais conhecido pelo apelido de Janico. Nascido no Rio Grande do Sul, recebeu esse apelido em razão de sua semelhança física e de comportamento com um personagem interpretado pelo humorista Canarinho na televisão. O apelido caiu no gosto popular e o acompanhou por toda a vida.
Janico vivia com sua companheira, Maria Puppo, formando um casal simples e divertido. Para sobreviver, sustentavam-se com a coleta de papel e papelão pelas ruas da cidade. Moravam em um barraco localizado na esquina da Rua Silva Jardim com a Cussy de Almeida e tinham como inseparável mascote a cadelinha Fofoca, que os acompanhava em todas as andanças.
O relacionamento entre Janico e Maria era intenso, mas também marcado por brigas e momentos turbulentos. Em um acesso de raiva, Maria chegou até a atear fogo no barraco em que viviam. Apesar disso, permaneciam juntos e eram figuras conhecidas de toda a cidade. Janico circulava sempre com um grande saco às costas, onde guardava os recicláveis recolhidos, o que lhe rendeu entre as crianças o temido apelido de “Homem do Saco”. Muitos acreditam que a lenda urbana de que esse “homem” pegava crianças pode ter se fortalecido a partir da imagem de Janico.
Era comum ver o casal pelas ruas, empurrando a carrocinha carregada de materiais, com a inseparável Fofoca acomodada dentro dela. Mesmo diante das dificuldades, eram lembrados pelo bom humor e pelas cenas curiosas que protagonizavam. Durante o carnaval, participavam do irreverente “Bloco dos Miseráveis”, desfilando com a carrocinha enfeitada e com Fofoca em destaque, arrancando aplausos e gargalhadas por onde passavam.
Outro traço marcante do casal era o gosto pela bebida. Quando Janico exagerava na dose, cabia a Maria colocá-lo dentro da carrocinha e levá-lo para casa, em uma cena que misturava comicidade e ternura.
Francisco Pereira de Souza, o popular Janico, faleceu em 5 de julho de 1972 e foi sepultado no Cemitério Recanto de Paz, no Jardim Rosele. Curiosamente, com o tempo, seu túmulo passou a ser visitado por inúmeras pessoas, que ali deixam placas de agradecimento por supostas graças alcançadas. Assim, a memória desse homem simples, mas marcante, permanece viva no imaginário afetivo de Araçatuba, transformando-o em uma figura quase lendária da cidade.


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Quando a Memória Silencia o Racismo: A História de Janico e Maria contada por um olhar branco
A crônica publicada no site Liberal Regional sobre o casal Janico e Maria Puppo, parte da série Memórias de Araçatuba, parece, à primeira vista, um afetuoso resgate de figuras populares da cidade. Narrada por um homem branco, o texto retrata a vida de um casal negro e pobre que viveu à margem da sociedade local nos anos 1970. Porém, uma leitura mais atenta revela os limites de uma memória construída a partir de um olhar que não enxerga — ou opta por não enxergar — as camadas de opressão racial e social que atravessaram aquelas vidas.
“Janico era um sujeito franzino, de fala mansa, humilde. Sua companheira, Maria Puppo, era o oposto: mulher forte, decidida, geniosa, às vezes até agressiva. Juntos, moravam num barraco improvisado entre as ruas Silva Jardim e Cussy de Almeida.”
A descrição é quase caricata: ele, o homem dócil; ela, a mulher “geniosa”. Ambos são retratados com traços que beiram o estereótipo do “pobre folclórico”, do “personagem urbano pitoresco”. O autor se esforça para criar uma narrativa simpática, quase cômica, como se o sofrimento deles fosse apenas pano de fundo para uma crônica leve e curiosa.
“O casal virou atração carnavalesca com o ‘Bloco dos Miseráveis’. Maria enfeitava a carrocinha usada por Janico para transportar papelão, e colocava a cadelinha Fofoca como destaque do desfile.”
Essa tentativa de “humanização” — por meio do humor, da criatividade do casal, de sua relação com a cadela — camufla uma realidade brutal: duas pessoas negras vivendo em extrema vulnerabilidade, sobrevivendo da coleta de lixo, expostas ao preconceito e à exclusão. Mas, em vez de denunciar essa estrutura de desigualdade, o texto romantiza a miséria.
Não há, em nenhum momento, uma problematização sobre o porquê de pessoas negras estarem relegadas à margem da sociedade. A raça sequer é mencionada. Isso é significativo — e sintomático. Em um país onde a pobreza tem cor, não racializar uma história de exclusão é perpetuar o silenciamento histórico das violências estruturais.
“As crianças tinham medo de Janico. Ele era o ‘Homem do Saco’. Tinha quem dissesse que ele pegava crianças. Eu, particularmente, nunca soube de nenhum caso concreto.”
Ao repetir esse boato, o autor ajuda a perpetuar um estigma que recai justamente sobre corpos negros e pobres: a ideia do homem perigoso, do “outro” ameaçador. Ainda que ele relativize a informação (“nunca soube de nenhum caso concreto”), o simples fato de incluí-la na narrativa reforça um imaginário social racista e punitivista.
Mais adiante, ele menciona que após a morte de Janico, seu túmulo passou a ser visitado por pessoas que atribuíam a ele “graças alcançadas” — um fenômeno comum em várias periferias brasileiras, onde a figura do “santo popular” emerge como forma de reconhecimento simbólico a pessoas que, em vida, foram marginalizadas.
“Em seu túmulo foram colocadas placas em agradecimento por milagres alcançados. Tornou-se uma figura quase mítica na memória afetiva da cidade.”
Mas novamente, esse reconhecimento é simbólico, não estrutural. Transforma o negro pobre em “santo”, “lenda urbana”, “mito afetivo” — sem jamais confrontar o sistema que o condenou à pobreza e ao esquecimento em vida.
O que está por trás desse tipo de narrativa?
A escolha do autor — um homem branco, escrevendo para um jornal tradicional — revela uma estrutura maior: quem tem o poder de contar as histórias e moldar a memória coletiva? Mesmo quando o foco são pessoas negras e pobres, são suas histórias realmente contadas por elas, ou mediadas por olhares distantes, que suavizam a dor e evitam qualquer confronto com as estruturas de poder?
A crônica sobre Janico e Maria, embora bem intencionada, escapa de qualquer análise crítica sobre:
O racismo estrutural que empurrou o casal para a informalidade e a exclusão.
A estigmatização racial que transforma um homem negro em figura ameaçadora para crianças.
O lugar social da mulher negra, retratada como “agressiva” e “geniosa”, sem contexto.
O silenciamento das vozes negras na construção da memória local — já que a história deles só ganha legitimidade quando contada por um homem branco, décadas depois.