*Marcelo Teixeira
Paulo Honório é um homem pragmático que valoriza o dinheiro e o poder acima de tudo. Ele se destaca pela sua postura cética e objetiva diante das situações, sendo muitas vezes descrito como “mais realista do que o rei”. Em São Bernardo, de Graciliano Ramos, a história retrata a trajetória de ascensão social do personagem e o modo como ele lida com os desafios e dilemas ao longo do caminho, revelando sua perspicácia e determinação para alcançar seus objetivos. Em diversas ocasiões, assim como muitos de nós, Paulo Honório se mostra um indivíduo que pensa conhecer mais do que alguém especializado em um assunto.
A expressão “mais realista do que o rei” significa que alguém está sendo excessivamente realista ou pragmático em relação a uma situação, ao ponto de superar até mesmo a atitude ou expectativas da pessoa com mais conhecimento e experiência envolvida na questão. O “rei” mencionado na expressão é uma referência a uma figura de autoridade ou poder, geralmente usado de forma figurativa para indicar alguém que está no topo ou é o mais influente em determinado contexto.
Quando alguém é descrito como “mais realista do que o rei”, significa que essa pessoa está sendo ainda mais objetiva, crítica ou cética em relação à realidade ou às circunstâncias do que se esperaria do próprio líder ou autoridade da situação. É uma forma de destacar o realismo ou a perspicácia dessa pessoa em relação aos demais, ressaltando sua postura racional e prática. Existe na frase em questão uma dose de sarcasmo que traduz uma séria situação psicológica muito mais comum do que imaginamos, o orgulho da própria ignorância.
Isso tem nome: efeito Dunning-Kruger, definido em 1999 a partir do estudos de dois psicólogos americanos, David Dunning e Justin Kruger. Os especialistas descrevem indivíduos que conhecem pouco uma atividade e a realizam mal ou pior que os outros, mas tendem a superestimar os seus conhecimentos. Atualmente, por exemplo, o mundo passa por um intenso período de descrenças na ciência e no conhecimento baseado em estudos e análises científicas. O movimento terraplanista, por exemplo, apresentou constante crescimento e é possível notar que os indivíduos que participam dele muitas vezes parecem acreditar firmemente que apresentam mais conhecimento do que especialistas na área.
Quando perdemos a mão em comentários descabidos e não há um amigo sequer para nos alertar tendemos a sentir constrangimento social, recriminação, decepção, insucesso e até o sentimento de injustiça, já que acreditamos possuir dotes, aptidões e qualidades. Pior, corremos o risco de ficar ainda mais ignorantes com o passar do tempo, cada vez mais negacionistas, irremediavelmente mais realistas do que o rei.
*Marcelo Teixeira é jornalista e integrante da Academia Araçatubense de Letras (AAL

