*Marcelo Teixeira
Quando eu era mais novo, gostava de pessoas muito gentis, muito educadas, muito respeitosas, muito polidas, de bem com a vida, sempre com um sorriso no rosto, muito tudo. Provavelmente, no meu imaginário, eu, bem jovenzinho e imaturo, quisesse ser como elas. Mas, na medida em que o tempo foi passando, e eu ganhando experiência, passei a perceber que gente boazinha demais, perfeitinha demais, santa demais, quase sempre esconde algo inconfessável.
Fato é que, de forma geral, a humanidade sempre foi fascinada pela figura do “bom samaritano” – aquele indivíduo que parece ser pura bondade, generosidade e perfeição. No entanto, há um crescente consenso entre especialistas de que a desconfiança em relação a pessoas que se mostram boas, gentis e perfeitas demais é não apenas justificável, mas também necessária para a preservação da saúde emocional e das relações interpessoais. Entre esses especialistas, destacam-se a psiquiatra, escritora e palestrante Ana Beatriz Pedrosa, e o comunicador social, especialista em Psicopedagogia e doutor em Educação, Ronaldo Nezo, que oferecem uma visão crítica sobre o assunto.
Ela, nas suas palestras, vídeos e textos, alerta sobre os perigos de idealizarmos pessoas que parecem excessivamente perfeitas. Segundo Ana Beatriz, “é natural e humano ter defeitos; a perfeição é uma máscara que esconde a verdadeira essência de uma pessoa”. A especialista argumenta que indivíduos que se apresentam como impecáveis muitas vezes estão ocultando características menos desejáveis ou mesmo intenções manipuladoras. Ressalta ainda que, na prática clínica, é comum observar que essas pessoas podem utilizar a sua aparência de perfeição para estabelecer relações de dependência emocional, controle e até mesmo abuso psicológico.
Absorto que essa desconfiança é uma forma de autoproteção. “A verdadeira bondade é discreta e não precisa ser exibida constantemente. Desconfie de quem faz questão de mostrar o quão bom e perfeito é o tempo todo”, aconselha Ana Beatriz. Ela também menciona que tais indivíduos podem sofrer de uma necessidade constante de validação externa, o que os leva a criar uma fachada de perfeição.
Já Ronaldo Nezo argumenta que o comportamento excessivamente gentil e perfeito pode ser um sinal de insegurança profunda. “Pessoas que se esforçam demasiado para serem vistas como boas estão, na verdade, lidando com suas próprias inseguranças e temores de rejeição”, explica.
Ele também destaca que, no contexto das relações interpessoais, a autenticidade é fundamental para a construção de vínculos saudáveis. “Uma relação baseada na imagem de perfeição é frágil, pois não se sustenta na realidade, mas em uma ilusão. Eventualmente, a máscara cai, e a verdadeira personalidade se revela, muitas vezes causando decepção e desconfiança”, afirma. Nezo sugere que uma boa prática é observar se a bondade e gentileza de uma pessoa são consistentes ao longo do tempo e em diferentes contextos, ou se são utilizadas de forma estratégica para obter algo em troca.
As visões de Pedrosa e Nezo convergem para a importância da transparência e da aceitação das imperfeições humanas. Afirmam os dois que é fundamental para a saúde mental e emocional reconhecer e aceitar as nossas falhas, bem como as dos outros. Isso não só promove relações mais genuínas e duradouras, mas também protege contra manipulações emocionais e psicológicas.
Portanto, a desconfiança em relação às pessoas que parecem boas demais, gentis demais e perfeitas demais é uma forma de autopreservação e de manter a integridade emocional. Ao invés de se deixar levar por aparências enganosas, é mais saudável buscar relações baseadas na autenticidade e na aceitação mútua das imperfeições humanas. Nesse contexto, a desconfiança não é sinônimo de negatividade, mas ferramenta essencial para a construção de uma vida emocional equilibrada e verdadeira.
Marcelo Teixeira é jornalista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira número 11

