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    Home»Cidades»Araçatuba»De engraxate em Araçatuba a cientista do Departamento de Defesa dos EUA
    Araçatuba

    De engraxate em Araçatuba a cientista do Departamento de Defesa dos EUA

    By dfernandesmr23 de agosto de 2023Nenhum comentário10 Mins Read
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    RECONHECIMENTO – Credenciais de José Néllis junto ao Departamento de Defesa dos EUA
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    Antônio Crispim – Araçatuba

    Falar inglês fez a diferença para a vitória de José Carlos Néllis, 74 anos. A frase poderia fazer parte de anúncio publicitário de qualquer curso de línguas, mas não foi isso que aconteceu. Néllis aprendeu a língua na escola pública e por meios próprios. Isso abriu as portas dos EUA para ele, que pode dar seu testemunho de sonho americano. O termo sonho americano faz parte da cultura dos Estados Unidos, representando o sucesso em todas áreas da vida. É o padrão de vida perfeito, parte do simbolismo do “novo mundo”, onde qualquer pessoa de diferentes origens e segmentos pode alcançar o status tão desejado.  José Carlos Néllis foi engraxate e cobrador e policial militar em Araçatuba e chegou ao Departamento de Defesa dos EUA. Realizou o sonho americano.

    Nascido em Penápolis, em 1949, neto de italianos imigrantes, José Carlos Néllis lembra que até os 6 anos nunca teve sapatos. Ia descalço à escola primária – Grupo Escolar Augusto Pereira de Moraes. “Aos 7 anos tive meu primeiro trabalho: aguava/varria um grande pomar e flores diariamente. Ganhava pouco mas comprei um par de alpargatas– este era tão bonito que só usava nos fins de semana”, recorda o saudoso e vitorio José Carlos Néllis.

    “Aos 12 anos eu era engraxate durante o dia na praça central onde o meu pai, Donato vendia amendoim de noite. Venho de uma família de 10 filhos e não nos alimentávamos muito bem.  Quando jovem era magrelo e quase desnutrido.  Melhorou um pouco quando crescemos e todos começamos a trabalhar em Araçatuba.

    No início dos anos 1960, a sua irmã mais velha, Rosalina, foi para o bairro da Aclimação, em São Paulo, trabalhar na casa de uma família e o levou. “Lá eu fiz uma caixa e fui engraxate na esquina da Rua da Glória com Conselheiro Furtado. Depois trabalhei como office-boy, ajudante numa grande alfaiataria na Rua Rangel Pestana. Como era longe eu pegava rabeira no bondinho de trilhos até a Praça da Sé.  O condutor até começou a gostar de mim, porque sabia que eu ia trabalhar.  Meu chefe era também filho de italianos imigrantes. Ele gostava do meu trabalho e atitude, e me deu um grande conselho na vida: ‘Zezinho, volta para tua cidade e estude. Sempre estude para ser alguém na vida, senão vai ser sempre um simples empregadinho’. Gravei isso na memória para sempre”, diz ele.

    Aos 14 anos voltou para Araçatuba, onde os parentes moravam no Alvorada.  “Estudei firme e com o tempo fui aceito no I.E.M.B.Cruz (curso Científico noturno) onde tomei três anos de inglês e francês. Gostei mais do Inglês.  De dia era cobrador (em bicicleta) de contas para uma loja. Ganhava 10% do que recebia. Tinha muitos devedores”, lembra Nellis, citando que após terminar a ronda de cobranças, ia para a biblioteca ou para um parque estudar, ler ou fazer tarefas da escola. No fim do dia ia de dois em dois irmãos tomar banho de chuveiro (total 10 filhos e pais!).  Vestia a camisa branca com bordado do I.E. no bolso, comia um arroz+feijao+batatinha, e apressadamente rodava a bicicleta para o I.E.

    “Minha felicidade vinha aos sábados com os amigos assistir filmes no cine Pedutti ou San Francisco, e depois dançar nos clubes até as 3 da madruga.  Íamos ao Country Clube nos domingos à tarde.  Era um tempo gostoso”, relembra,

    Com boa formação, aos 19 anos Néllis fez concurso para entrar na Polícia Militar (PM). Passou e foi fazer escolinha de soldados.  Seis meses depois foi destacado para trabalhar no Policiamento de Trânsito de Araçatuba. “Usava aquele capacete branco e um livro de multas na cintura– dei muitas multas para quem desobedecia aos sinais vermelho ou Pare”, conta o Néllis.

    A vida de José Carlos Néllis começou a mudar em 1970. No quartel no Santana os oficiais sabiam que falava razoavelmente bem o inglês. Um tenente o destacou com outros dois policiais como parte da segurança-escolta por três dias durante a visita de dois diplomatas americanos (Mr. Robert Lindquist) nas festividades da “Festa do Boi Gordo”. Os diplomatas ficam hospedados no Grande Hotel.  “Esse americano notou que eu gostava de falar o inglês, era esforçado (e tinha interesse em aprender mais)… Ele me perguntou se gostaria de ir estudar inglês nos EUA, mas só me ofereceu o visto de estudante no passaporte.  Respondi que iria pensar na oferta, e agradeci muito: “Thank you very much”, afirmou,

    Nos seis meses seguintes foi uma maratona de ações. Arrumou tudo, economizou dinheiro, tirou o passaporte e foi ao Consulado em São Paulo pegar o para ir estudar nos EUA.  “Ele facilitou tudo no mesmo dia.  Obter tudo foi um trabalho danado, mas essa foi a chave do início do meu sucesso”, recordou. Após o visto, pediu baixa da Polícia Militar, vendeu a Lambreta e comprou uma boa mala. Jamais teve vocação para a música como seus irmãos (Banda The Friends). Seu foco era os estudos e no trabalho.

    Em agosto de 1971, aos 22 anos, saiu do Brasil. Na mala, além de bagagem, muitos sonhos.  “Sempre senti que não teria um bom futuro nesse País, e “iria ser sempre um empregado”.  Me tornei um aventureiro.  Porém se não tivesse dado esse passo, hoje eu seria como os irmãos que ficaram e formaram família no Brasil. Regressei a Araçatuba somente para visitar a família várias vezes”, diz

    Segundo José Carlos Néllis, a razão principal pela qual deixou o Brasil foi por não poder entrar numa universidade após terminar o I.E. Teria primeiro que fazer o Vestibular. Ele já sonhava fazer Engenharia-Química ou Medicina, mas as universidades tinham um limitado número de vagas nessas áreas de estudo. “Consequentemente, deixei o Brasil com um pouco de pena.  Nos EUA entrei numa boa universidade somente com meu currículo de notas do I.E com média 9,5.  Não precisei de vestibular, e por cima ganhei uma bolsa de estudos.  Durante meu curso de Mestrado (Master Degree) recebia bom salário como Assistente de Professor lecionando a parte de Laboratório e provas dos alunos no curso.  No decorrer dos meus estudos, recebi láurea e três diplomas como Geólogo-engenheiro, Engenheiro Químico, e Master of Business Administration.  Sempre que tinha tempo, por anos aprendi mais três línguas; falo e escrevo fluentemente o inglês, italiano, português e espanhol (posso “enrolar” no francês).  Dei muitas palestras em inglês nas viagens e espanhol (no México)” narra Néllis.

    O engenheiro frisou que em 1983, após terminar Mestrado, voltei ao Brasil tentando conseguir uma boa colocação e fixar residência.  Porém, por não ter “pistolão” e sem conhecer gente importante, não teve sucesso. Ficou vários meses no Brasil e teve apenas uma oferta para lecionar Geologia-Engenharia na USP em São Paulo.  Por carta ofereceram salário correspondente a 700 dólares por mês e não era oferta permanente, com provável renovação anual. Ele mantém a carta até hoje.  No telefone o diretor disse que ele teria tempo de fazer bicos por fora da USP em consultoria.  Sentiu-se ofendido. Novamente no Brasil não lhe deram valor aos seus estudos com diplomas dos EUA. “Voltei para os EUA decidido a ficar permanentemente.  Me tornei Cidadão Americano no Fórum onde sempre fazem uma cerimônia maravilhosa para quem se torna Cidadão. Foi até emocionante”, conta.

    De acordo com Néllis, nos EUA não há a realização de concurso. “Tenho um currículo de seis páginas e boas referências de chefes nos trabalhos anteriores. Aqui em geral as companhias e gerentes dão valor à capacidade, experiência e grau de estudos do indivíduo. Não quem ele conhece como pistolão. Trabalhei no ramo dos meus estudos por cinco anos. iniciei ganhando 3 mil dólares por mês em 1984.  Aprendi e progredi muito.   Depois entrei para o Departamento de Defesa como engenheiro-químico Oficial de Testes, onde fui registrado como “Physical Scientist-Chemical Engineer” (Cientista-Engenheiro)”, afirmou.

    Após 8 anos, ele foi promovido a Diretor de Testes no ramo de contaminação e descontaminação de agentes químico, biológico, e nuclear em vários materiais militares, incluindo aviões, tanques, armamentos e outros.  Deu aulas e dirigiu grupos de 10 a 30 técnicos americanos nesses ramos. Levou suas equipes para a Coreia do Sul e em vários estados nos EUA para executar diferentes tipos de testes.  Todos tinham classificação “Top Secret” para trabalhar nessa área de armamentos militares. Além disso, publicou dezenas de trabalhos técnicos/científicos nesse ramo com muitos dados fazendo avaliações e recomendações para diferentes equipamentos militares sob o Departamento de Defesa.

    “Viajei a trabalho por seis países, e nas minhas férias visitei uns outros 9 como turista. Aqui no exterior conheci muitos brasileiros que também deixaram o Brasil pela mesma razão, e como eu, eles jamais regressaram. “O Brasil é lindo, mas sem oportunidades”, diziam naqueles anos”, acrescentou Néllis. Segundo ele, nos últimos 10 anos de trabalho nos EUA foi eleito como membro da Organização União dos Países da Otan (N.A.T.O em inglês).  “Essa equipe de cientistas-engenheiros representamos o USA, e periodicamente frequentamos reuniões na Europa e Canadá.  Dei palestras na OTAN em países na Europa.  Escrevi dezenas de publicações científicas.  Nesses anos fiquei bem conhecido e respeitado por todos”, enfatiza o brasileiro, que é cidadão norte-americano.

    José Carlos Néllis se aposentou recentemente e o fato foi marcado em cerimônia com os colegas de trabalho.

    “Vivo e trabalho nos EUA há mais de 50 anos como cidadão americano–com muito orgulho.  Ainda estou bem de saúde.  Não consumo bebida alcoólica e tenho alimentar saudável. Minha esposa chilena-americana cozinha em casa.  Vamos na academia/exercícios 3 a 4 vezes por semana no condomínio onde moramos.  Amo minha esposa e os dois filhos. Temos uma vida confortável em uma casa linda numa zona nobre da cidade de Virgínia”, acrescentou. A cidade é próxima de Washington DC.

    Estudos

    Mesmo com muitas atribuições, Néllis fez pesquisa sobre a genealogia dos seus antepassados italianos e escreveu um livro sobre a imigração de italianos no Brasil. O livro foi publicado em inglês, italiano e português (está no YouTube grátis).  Ocasionalmente visita os descendentes dos seus avós no Abruzzo-Itália, como também revisitar outros países que conheceu enquanto exercia seu trabalho para o governo americano.  “Vou viver o resto da minha vida bem feliz e contente com o meu sucesso e escolhas que fiz”, salientou.

    “Aqui aprendi a respeitar todos tipos de pessoas. Ser gentil e valorizar aqueles que trabalharam para mim e comigo nos meus projetos.  Não digo que sou rico, mas vivo bem e sou muito respeitado pelos amigos no Departamento de Defesa e meus amigos de lazer, e pelos parentes da minha esposa que residem em Miami.  Sempre viajamos para a Europa. Tudo isso é a melhor riqueza que eu desejava.  Enfim, estou colhendo os frutos que eu plantei durante a minha juventude”, disse, enfatizando. “Eu amo muito este País onde vivo — os Estados Unidos da América”.

    Mensagem

    “Cada vez que eu ia passear no Brasil, eu olhava para os jovens na rua de bicicleta, de moto, ou caminhando apressadamente para ir ao trabalho.  Os jovens como eu de família simples daqueles tempos…. E pensava comigo: “Quase todos esses jovens têm uma tremenda capacidade inata, muitos têm boa inteligência e são trabalhadores. Mas, infelizmente faltam oportunidades no país para eles terem um melhor futuro na vida.  E me dava pena. Gostaria de dizer a todos que se não tiverem oportunidades no Brasil, procurem onde tiver.  Procurem onde possam oferecer uma oportunidade para estudar, progredir, ter um bom trabalho e um bom futuro como eu tive, criar uma família saudável e ser feliz.  Nem todos vão ter a mesma oportunidade, mas os jovens brasileiros devem ficar de olhos atentos para quando uma chance aparecer na vida deles, reconhecer e agarrar a oportunidade, a qual, às vezes, pode não aparecer novamente.  Muitos deles aí são como eu fui.  Boa sorte aos jovens brasileiros”, finalizou José Carlos Nélli, ou Joseph Nellis (EUA) e Giusepe (Itália).

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