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terça-feira, agosto 9, 2022

Arteterapia

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Um pouco de azul e amarelo e vai surgindo um verde. Um toque de branco e surgem tons pasteis. Alguma nuance de vermelho e a cor desejada nasce, pronta para cobrir o desenho sobre o papel, em um processo quase alquímico. Um vasinho com flores brancas de miolo amarelo como modelo e por quase duas horas, pela plataforma zoom, a professora e outros três colegas, cada um morando em um canto do Brasil, misturamos cores, pintamos e conversamos.
Horas antes e o dia não tinha sido dos melhores. Todos nós temos nossos dias ruins, afinal. Aqueles momentos em que questionamos escolhas, lamentamos a sorte ou a falta dela, além de ressuscitarmos velhos dilemas pessoais. Quase desmarquei a aula, porque não estava realmente no clima. Ainda bem que não o fiz.
Sobretudo durante os dias mais críticos da pandemia, descobri que a arte salva e creio que muitas outras pessoas tenham sentido o mesmo. Enquanto mexi nos meus pincéis e tintas, dei cores as minhas horas e as tornei suportáveis. Eu, que sempre gostei de ler, naqueles momentos não conseguia me concentrar nos livros e para não adoecer fui brincar de artista.
Gosto quando os resultados ficam bons, mas o processo é que me seduz. Não tenho pretensões artísticas significativas, pois o que faço é para meu prazer, tão somente. É uma catarse, de fato. Sinto a respiração se acalmando e meus pensamentos vão mudando de rota. Concentro-me nas cores e nos tons que vão surgindo. Aos poucos o papel vai se tornando a representação de figuras que ganham vida em um mundo à parte. E é para lá que eu também sigo, alheia ao que não posso mudar ou compreender.
Não sei muito sobre a teoria aplicada à arteterapia, tampouco os fundamentos dessa técnica que, por meio de processos artísticos, favorece ao autoconhecimento, mas conheço os benefícios da arte sobre mim mesma e recomendo a quem interessar possa. A arte é libertadora e não é outro o motivo, penso, pelo qual é utilizada como terapia para crianças, doentes e pessoas com desordens mentais, entre outras.
Certa vez ouvi ou li que as crianças pequenas são os artistas mais originais e livres, pois a ausência de um senso estético predeterminado socialmente permite que se expressem de modo genuíno. Depois disso nunca mais olhei um desenho infantil com o mesmo olhar. Todos me parecem agora obras incríveis. O que é um elefante de asas senão a pura expressão da liberdade? Ao crescermos, no entanto, alguém nos diz como os desenhos devem ser e, se não somos capazes de atingir certos padrões, um pudor idiota acaba sepultando os futuros artistas.
Assim, tenho reaprendido a desenhar. Primeiro estudando e treinando, depois buscando me libertar das amarras que me fizeram acreditar que meus traços não preenchiam o mínimo necessário. Ao me permitir a generosidade das linhas, a me poupar da autocrítica exagerada vou também me tornando uma pessoa menos presa aquilo que me limita, que diminui meu espaço no mundo. Vou preenchendo os meus vazios, reservando o branco do papel apenas para os respiros (e suspiros) necessários.
Claro que aqui me refiro apenas a um aspecto da arte, porque seu conceito é agigantado e ela comporta um sem-número de possibilidades. O que sei e acredito é que há um artista em cada um de nós e aqueles que se permitem essa descoberta, ainda que nas mínimas coisas, encontram um mundo no qual é possível ser mais feliz. Não há contraindicações.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e pinta e borda – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

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