CENTRO - Rua Olavoi Bilac esquina com a Oswaldo Cruz, vendo-se ao fundo o prédio do antigo Banespa

ARAÇATUBA, UM PORTO SEGURO!

Compartilhe esta notícia!

HÉLIO NEGRI – ARAÇATUBA

Decididamente, esta é mais uma declaração de amor a Araçatuba. Ela, que encanta a muitos, desencanta a alguns, mas que parece ter algo mágico, indecifrável a nos fascinar eternamente. São muitos os que aqui retornando, se deixam ficar, por horas, meditando sobre essa sensação de posse definitiva que a cidade costuma provocar. E o clima? Sempre verão. É a água do Baguaçu, diz a lenda.

Araçatuba é hospitaleira, é a primeira mensagem que o visitante encontra quando chega na avenida Brasília. Logo, se sente à vontade. Estrangeiros se apaixonam pelo céu azul, pelo sol tórrido, pela geografia plana daquela que foi um dia a “cidade das bicicletas”. É bem verdade que na década de 70, as ciclovias (projeto do então Secretário de Planejamento do Estado de SP, Jorge Wilheim) não vingaram por aqui.

A Araçatuba de gente talentosa em todas as áreas. À crítica de  que a cidade não tem expressão cultural, a história responde com personagens fantásticos que nada ficam a dever a outras cidades brasileiras. É preciso, porém, implementar políticas públicas. O spalla da extinta Camerata, Satoru Okida, era um médico conceituado, culto e se dedicou também inteiramente à música, ao lado do outro médico, Carlos Alberto Normanha: os caminhos da boa música. Sem falar de nosso maior seresteiro, Renato Costa Monteiro, que transformava qualquer ambiente em um verdadeiro “chão de estrelas”

Leia um livro do pediatra Geraldo da Costa e Silva e sinta a delícia de um texto escorreito, eloquente, vivo em seu caminhar pelo mundo das palavras. Conheça mais de perto a história da Academia Araçatubense de Letras, converse com a professora Maria Aparecida de Godoy Baracat, procure na biblioteca municipal um texto de Aldo Campos ou peça para alguém definir o que sentiu ao ouvir os acordes da sanfona de Antônio Carlos Pacheco, o nosso Pachecão, tocando La Vie en Rose ou um tango de Gardel. Somos diferentes.

Leia uma petição do advogado Sérgio Caputti de Silos, uma sentença do magistrado Antônio Benedito Ribeiro Pinto (que se transferiu e chegou a desembargador, aposentando-se depois de proferir mais de duas dezenas de milhares de votos, sempre preocupado com produtividade, sacrificando até mesmo sua saúde, adiando sempre o gozo de férias e descansos): um exemplo aos seus pares. A Araçatuba de suas misses, Idalva Fraga Moreira, Ângela Maria Favi e, se me permitem, Maria da Penha Bocuhy Negri.

Leia uns versos de José Feliciano, um editorial de Ubirajara Lemos (o “véio” Bira, irretocável na gramática e na crítica ácida de seu texto) ou de um Genilson Senche, sempre um visionário; uma notícia com a assinatura de Manoel Martins, os relatos da crônica social de Odette Costa Bodstein (que foi aos Estados Unidos entrevistar Sebastião Ferreira Maia, a convite do próprio “Tião Maia”, a maior das expressões do empreendedorismo na distante década de 1950). Relembre uma crítica de Alcides Mazini, peça para visitar o acervo magnífico de mpb de Ataliba Sanches ou as preciosidades do rock’n roll do Promotor de Justiça, Reinaldo Penteado, meu contemporâneo na Faculdade de Direito.

Leia uma crônica de Élcio Bueno ou relembre Éddio Castanheira, que foi um dos primeiros diretores da Divisão Regional de Saúde e escrevia para o jornal A Comarca, que Paulo Alcides Jorge, vindo de Avaré, transformou em empresa rentável em pouco tempo. E se você for visitar a antiga Bolsa de Valores em SP, lembre-se que a “escultura do martelo” é marca registrada do artista araçatubense Osni Branco que sempre divulgou a cidade no Japão e por este mundo afora. Logo você perceberá que somos, de fato, diferentes.

Sílvio Russo, Clara Anze, Márcia Porto, Mildred Rocha e tantos talentos que fizeram da pintura uma profissão. Pense em um Joaquim Dibo, um abnegado que respirava educação 24 horas, no Maestro José Raab que fez com a Profª Sarah Barbosa, o Hino de Araçatuba; no Prof. Carlos Aldrovandi, primeiro diretor da Faculdade de Odontologia. Convido a todos para que conheçam a história dos professores Eugênio Zerlotti, Tetuo Okamoto, Robert Holland, do pró-reitor de graduação, Antônio César Perri de Carvalho (hoje um líder espírita reconhecido em todo o Brasil) e tantos outros profissionais que construíram invejável reputação. E saiba porque faz tanta falta na política um José Ferreira Batista Júnior, o Ferreirinha. Nosso maior edil.

Leia uma das muitas crônicas de Jorge Napoleão Xavier, o Napo, sobre a “velha senhora”, um craque das palavras, ele sim um impecável memorialista. Reveja o porte de um Adelino Moreira, Adelino Brandão, dos inigualáveis mestres do Instituto de Educação Manoel Bento da Cruz (IE) onde estudei e onde meu irmão, Moacir Negri, foi diretor no centenário da escola.

Vibre, de novo, com o basquete dos áureos tempos de Júlio Mazzei e Walter Perri Cefali (nas quadras do Colégio D. Pedro II) e depois com a verdadeira seleção de basqueteiros de Nelson Luz, o Morto: Cintia, Helen (além do Mundial, foi medalhista em Sydney) e Silvinha (bronze na Austrália e prata em Atlanta) a Sully e o Nelson (na seleção das categorias de base). Agora o Rafael está levando o nome da família na adulta masculina. E por falar em sucesso, não se esquecer da dupla Doutor Pratinha e Aymoré Chiquito com a AEA de 1973, campeã paulista, além do Vôlei Futuro, projeto espetacular de Aurivânia Constantino.

Araçatuba da sempre saudosa Maria Aparecida Ferraz, a grande dama que reunia, de forma simples e natural, todas as colônias locais em grandes festas beneficentes; de Florivaldo Prates que manteve durante quase 30 anos um clube de amigos, por onde passaram mais de 600 “craques da bola”; gente bacana, competente, como Márcio Polidoro e Hugo Higushi, Manoel Dourado e Maria Lúcia Milani, Hirose Itinose; o bem humorado jornalista Jeremias Alves Pereira em sua Tribuna da Noroeste: a cidade do violonista José Calixto (que estudou com Paulinho Nogueira) e do compositor e multi-instrumentista José Renato Gimenes, patrimônio nosso.

Araçatuba dos velhos carnavais, de Geni, Aracy e Dario Rico, cujos sorrisos permanecem na memória dos foliões com seus blocos maravilhosos. E dos Reis Momos Edson Cabariti (o Bolinha), Moretti e de João Navarro (mais de 20 anos brilhando no personagem) e que perdeu sua Rainha em pleno carnaval, aquela que brilhou nos idos da década de 1970. Maria Neide de Araújo, a bela morena que parava a Rua Oswaldo Cruz ao desfilar nos carros alegóricos, faleceu em plena segunda-feira de carnaval.

Leia sobre a Araçatuba de Plácido Rocha e dona Eponina – que corria para dentro de casa e trazia uma camisa do deputado para entregar a um desconhecido que batia em sua porta. Araçatuba de Dante de Conti e Nicola Fares que implantaram a nossa primeira estação de rádio: e se Luís Falanga foi o primeiro locutor a inaugurar a emissora AM, tive o privilégio de ser o primeiro locutor a falar na Cultura FM, de Gladys May e Mauri Pavanello de Campos; a cidade dos Astros de Amanhã que teve, entre outros artistas, o advogado e Procurador do INSS, Lúcio Leocarl Collichio.

Saia a passear pelas ruas da cidade para reconhecer a arquitetura do construtor Santo Giammusso. A Araçatuba de Manoel Dionísio e José Colaferro que, embora em marcas diferentes, deram um exemplo de trabalho e dedicação de igual retidão na busca de seus objetivos. A Volkswagen e a Chevrolet chegando lado a lado em primeiro lugar no pódio dos grandes empreendimentos locais. A cidade de Chaim Zaher, que na década de 1970 apontou os olhos para o horizonte e, confiante, construiu seu império nas áreas da educação e da comunicação. E, por amor, não deixa de olhar sempre para esta cidade que o acolheu como um filho.

A cidade do boi gordo, de Clibas de Almeida Prado, Osvaldo Cintra e do mineiro de Uberlândia, Torres Homem da Cunha que comandava uma das marcas mais tradicionais da pecuária zebuína no Brasil, a VR, criada em 1914 pelo pai, Vicente Rodrigues da Cunha. Na década de 60, Torres Homem foi responsável pela importação de grandes reprodutores da raça nelore da Índia, como karvadi, cuja genética contribuiu para melhorar a qualidade do rebanho brasileiro. A cidade da Exposição de Animais e do Rodeio, de tanto sucesso no Brasil, e a mais recente chegada da ABQM com seus magníficos cavalos Quarto de Milha.

A Araçatuba de Luiz Ortiz, o advogado/poeta para quem eu gravava as crônicas de Natal indicadas por Líbero Bezerra de Menezes, o Belô: o carnaval das escolas de samba de Zé Alves & Cia, fazendo história na batida do surdo e no repique dos tamborins e de Rosvel Meneses; dos bailes do Clube Bancários, Corinthians e Araçatuba Clube, de onde saiu o “Açucareiro” a escola de samba criada pelo Fiscal de Rendas, Raul Bresciani, na gloriosa década de 1970.

A cidade dos prefeitos Aureliano Valadão Furquim (avô do magistrado Antônio Angrisani de Oliveira Filho) que colocou Araçatuba no mapa estadual com o codinome “capital do asfalto”;  de Célio de Araújo Cintra, José Coelho Júnior e Renato Prado, Waldemar Alves, Adelino Moreira Marques, Floriano Camargo de Arriuda Brasil, Antônio Saraiva e Nelson Pires, Joaquim Geraldo Correa, João Batista Botelho, o Cuiabano, Sylvio e Germínia Dolce Venturolli. Depois Valdir Felizola de Moraes, Oscar Luís Ribeiro Gurjão Cotrim, Sidney Cinti, Valter Tinti, Domingos Andorfato, Jorge Maluly Neto, Cido Sério e Dilador Borges.

Araçatuba de pessoas extremamente cultas, mentes privilegiadas como as de Washington Luiz Ferreira da Cunha, Fausto Perri, Fernando de Almeida Prado e Creso Machado. Esportistas brilhantes, como Anubes Ferraz (campeão sulamericano de atletismo) Manoel Lopes Sales, José dos Santos Primo e tantos outros.

Esta cidade exerce um fascínio inexplicável. Espera apenas a ocasião para dizer: “aqui estou”, lançando um olhar de desafio aos novos empresários para que as futuras gerações não precisem lamentar atos escabrosos como a demolição da antiga sede da Associação Comercial; da Igreja Matriz e da Igreja Metodista (duas lamentáveis decisões) ou do primeiro Ginásio de Estado que Naoum Cury, meu saudoso amigo e um apaixonado pelas raízes da história local, contava ter assistido à sua demolição com profundo pesar.

A quem interessar possa, como diria o causídico Hélio Costa, seu primeiro cliente. Se o bar é uma instituição brasileira, o ARMEC foi seu reduto maior. Inaugurado na sexta-feira do carnaval de 1970, o Bar Meu Cantinho (que logo virou Associação Recreativa Meu Cantinho) de propriedade de Michel Laje e seu sobrinho, Munir, tornou-se nos seus 19 anos um patrimônio araçatubense. Seus clientes, senhores ilustres da cidade, formavam um grupo seleto. Sucesso similar (a conferir) só o Bola 7 a quem um professor americano dedicou uma carta inteira ao Paulinho Perri de Carvalho, referindo-se ao Seven Ball. A cada três linhas, repetia: “What a wonderful city !”

Com a presença de muitos jogadores de futebol, surgiu um time cuja história pode ser melhor contada por um ex-frequentador. Jarbas Rister (letra) e Edmundo Alves (melodia) compuseram o hino, lembrado até hoje: “Armec, Armec, Armec /meu coração vai vibrar/ minha maior alegria é ver o Armec jogar / Com chuva ou com sol eu vou/faça frio ou calor /eu não quero ter inimigo /mas por causa do Armec eu brigo”.

Araçatuba, muitos a defendem, outros a criticam, às vezes falam mal de suas ruas, a falta de parques públicos para suas caminhadas, a ausência disso ou daquilo, coisas urgentes a serem feitas. Ela apenas observa, contempla a todos com sabedoria: uma hora chegará em que o bem coletivo superará os interesses pessoais e, unidos pelos mesmos objetivos, construiremos uma cidade melhor, mais forte, menos desigual. Mais humana. Na verdade, é importante dizer: você continua linda !

Hélio Negri, radialista, jornalista, diretor regional da Universidade Paulista. Araçatubense.

ATRAÇÃO  – Trecho da Avenida Joaquim Pompeu de Toledo a partir da Avenida Saudade

Compartilhe esta notícia!

Veja também

Mais um médico morre de covid na Santa Casa de Araçatuba

Compartilhe esta notícia!DA REDAÇÃO – ARAÇATUBA O médico Sebastião de Souza Freire, 60 anos, faleceu …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *