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quinta-feira, agosto 18, 2022

Ação em Araçatuba quer mostrar que surdo pode ouvir e falar

ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Quem é do ramo admite: a cena é desesperadora. Basta sair o diagnóstico, confirmando a deficiência auditiva de uma criança, para os pais ficarem aos prantos. Muitos não sabem o que fazer nem onde procurar tratamento.
Mas é possível, sim, um surdo escutar e falar. Para provar isso e levar informação, algo que muitas vezes parece ser a maior carência de famílias que contam parentes nessa situação, a empresária e auxiliar administrativa Márcia Angelo Ferraz Lazarini está trazendo para Araçatuba o 1º Encontro de Implantados.
A idealizadora é um exemplo concreto da luta pela causa na cidade. Sua batalha para garantir tratamento ao seu filho, Ian, hoje com 6 anos, foi mostrada por O LIBERAL REGIONAL em 22 de abril do ano passado. Na ocasião, reportagem mostrou que Márcia, juntamente com seu marido Wanderley Sérgio Lazarini, estava em mobilização para conseguir R$ 30 mil a fim de comprar um processador externo para colocação no aparelho de audição da criança. O instrumento havia sido quebrado, enquanto o menino – que, além de surdez total, é autista – brincava dentro de casa.
A ideia, então, de realizar o evento está ligada ao fato de Márcia pertencer a um grupo de 12 pessoas, no Brasil, que respondem por usuários de processador como o usado por Ian. Esses encontros são realizados em todo o País e, agora, chegou a vez de Araçatuba, diz ela. “É um encontro para falar sobre o implante coclear”, diz a mãe de Ian, ao explicar o tema do seminário, referindo-se ao dispositivo médico eletrônico para pessoas com perda auditiva severa ou profunda.
A ação vai além. “Em Araçatuba, para esse tipo de tratamento, tudo é muito difícil. A gente tem que viver a história para saber. Quero falar para as mães sobre os direitos dela, os quais só fui descobrir quando o Ian precisou.” Márcia cita como exemplos desse desconhecimento o fato de mães não saberem que o atendimento mais próximo é em Bauru. E conta que muitas pessoas acabam tendo que ir à Justiça para terem seus direitos assegurados. “O convênio, por exemplo, é obrigado a fornecer o aparelho a quem necessita e faz parte de plano de saúde. Por isso, vamos ter um advogado para explicar isso.”
PROGRAMAÇÃO
Marcado para 16 de março, em uma área de lazer no bairro Ipanema, o evento terá seu início com apresentação feita pela professora Andrea Cintra Lopes, da Associação do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru, da USP (Universidade de São Paulo. Haverá ainda uma sessão de troca de experiência dos usuários; bate-papo com fonoaudiólogos de reabilitação; uma assistente social da Adap (Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear), de Bauru; e otorrinolaringologistas. Também estão previstas brincadeiras para crianças.
Na oportunidade, também será lançado o livro “Desculpe, não ouvi”, da blogueira e escritora Lak Lobato, de São Paulo. A autora, que virá à cidade exclusivamente para o evento, perdeu a audição na infância e voltou a ouvir com o implante coclear. Na obra, ela narra sua experiência como surda oralizada e, posteriormente, como usuária do implante coclear desde 2009. Pela poesia, ela procura falar sobre os sons redescobertos e auxiliar na divulgação de tecnologias auditivas.

 

Fonoaudióloga defende triagem nos primeiros dias de vida

Segundo a fonoaudióloga Tamiris Alves Araújo de Lima, de Araçatuba, é difícil haver uma estimativa de quantas pessoas possuem deficiência auditiva na cidade. Ela explica que, para saber se a criança tem surdez ou não, é necessário fazer uma triagem, já nas maternidades. “É preciso fazer esse diagnóstico precocemente para que a intervenção seja precoce também. Isso porque o primeiro ano de vida é o primeiro ano de descobertas”, avalia a profissional.
Na avaliação dela, quando se descobre a surdez com 3 ou 4 anos de idade, por exemplo, muito tempo sem escutar nada já se passou. “Então, vamos descobrindo uma grande quantidade de pessoas que utiliza o aparelho através da triagem, o que tem ajudado bastante. É importante a intervenção precoce até seis meses para não se perder tantas fases”, recomenda.
Ela endossa o argumento de Márcia, segundo o qual a informação é ferramental elementar no tratamento da deficiência auditiva. Tamiris ressalta que, no próprio serviço público, para conseguir uma viagem com o objetivo de garantir o tratamento, muitos são os documentos a serem apresentados. “São muitos papeis para provar o que vão fazer em outra cidade”, diz. Por isso, ela enfatiza a necessidade tratamento precoce. “Muitas vezes, são necessários exames complementares, que levam meses, atrasando o tratamento da perda auditiva. Isso, obviamente, acarreta mais meses para se entrar na fila do SUS (Sistema Único de Saúde).”

 

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