*Marcelo Teixeira
Desde o mais remoto tempo, o ser humano tenta driblar a ausência. Nas paredes úmidas das cavernas, há milhares de anos, mãos ancestrais traçaram desenhos que buscavam eternizar cenas cotidianas e pessoas amadas. Era a tentativa primitiva de deter o tempo, congelar o instante e, de algum modo, manter presente o que se esvai. Aqueles registros rupestres, muito além de arte, eram declarações emocionais: um esforço para não esquecer.
Com o avanço das civilizações, vieram a pintura técnica, a escultura e, mais adiante, a palavra escrita — esta última, um marco na capacidade humana de armazenar sentimentos, narrativas e memórias. A imprensa popularizou a permanência dos registros, democratizou a saudade. Já não era preciso ser rei ou herói para deixar vestígios. E então vieram a fotografia, o cinema e, finalmente, o vídeo caseiro. Com essas ferramentas, mães guardaram os primeiros passos dos filhos; filhos conservaram os últimos sorrisos dos pais. A memória deixou de ser exclusivamente mental e tornou-se material, palpável.
O século XXI trouxe a nuvem digital — metáfora perfeita para o modo como hoje armazenamos afetos. Fotos, áudios, vídeos, cartas digitalizadas, conversas em aplicativos: tudo paira sobre nós, invisível, mas acessível a um toque de dedo. Um neto, do outro lado do mundo, pode ouvir a voz do avô falecido, ver seu rosto e rir com a sua piada contada num vídeo de anos atrás. A tecnologia, nesse ponto, tornou-se um alívio para a dor da falta de alguem próximo. Uma prótese emocional.
Mas não parou aí. A inteligência artificial adicionou uma nova camada de complexidade — e de inquietação — a esse fenômeno. Já é possível reconstruir digitalmente a imagem, os gestos e até a voz de alguém que se foi. Algoritmos refinam a linguagem, modelam a expressão facial, simulam a entonação. Há quem, em luto, converse com uma versão artificial de um ente querido, ouvindo respostas que parecem verossímeis, por mais que saibamos, racionalmente, que são apenas probabilidades geradas por uma máquina.
Essa tecnologia desafia fronteiras éticas e emocionais. Ela mata a saudade, sim, mas também a prolonga indefinidamente. Substitui o esquecimento saudável pela repetição compulsiva do contato. O que antes era finitude agora é suspensão. O luto, que tinha começo, meio e fim, torna-se processo infinito.
Filosofos, psicólogos e historiadores dizem que “memória é sempre uma construção”. A frase, aparentemente simples, revela muito sobre nosso tempo. Construímos memórias como queremos lembrar — e agora, com a ajuda de sistemas inteligentes, moldamos essas lembranças à nossa medida. Já não é apenas o passado que recordamos, mas o passado que reconfiguramos. A saudade, antes bruta e silenciosa, tornou-se interativa, dinâmica, quase personalizada.
Há beleza nisso. A avó que canta uma canção para o bisneto que ela nunca conheceu; o pai que lê uma história para o filho mesmo depois de partir. Mas há também algo de assustador. A morte sempre foi o grande limite. Hoje, isso se se esgarça. Há uma espécie de imortalidade digital — precária, mas insistente — que redefine o que entendemos como “partida”.
A tecnologia, portanto, não apenas mata a saudade: ela a transforma. De lembrança passiva a experiência ativa. De dor surda a simulacro de presença. Talvez um dia a saudade se torne tão sofisticada que se confunda com a convivência. E, quando isso ocorrer, será preciso relembrar que, por mais avançadas que sejam as máquinas, a ausência ainda é parte essencial do humano. Porque é ela que nos ensina o valor do instante, a preciosidade do toque e o silêncio inevitável que, ao fim, molda quem somos.
No fundo, a tecnologia não elimina a saudade. Ela apenas a reorganiza, nos oferece novos rituais para lidar com a ausência. E, talvez, nos ensine que, mesmo entre zeros e uns do código binários das máquinas modernas, o coração ainda bate.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira de número 11



