*Marcelo Teixeira
Recentemente, deparei-me com uma palavra que, à primeira vista, parece apenas um capricho da língua ou um erro de construção: “desimportante”. Quem a apresentou-me foi o meu confrade Antônio Luceni. Soa estranha, quase clandestina, como aquelas expressões que surgem no meio de uma conversa popular e sobrevivem porque traduzem algo que os dicionários ainda não alcançaram. E foi exatamente isso que me fascinou. Há palavras que entram na nossa vida como hóspedes discretos, mas, uma vez compreendidas, reorganizam silenciosamente a mobília do pensamento.
Aprender novas palavras é ampliar o território da consciência. Quem conhece mais termos comunica-se melhor, expressa pensamentos com maior precisão e desenvolve uma capacidade crítica mais refinada. O vocabulário não é ornamento; é ferramenta. Uma pessoa com poucas palavras vive prisioneira de emoções imprecisas. Sente raiva quando talvez fosse frustração, sente tristeza quando talvez fosse desalento. Nomear corretamente é compreender corretamente. A língua organiza o caos interior.
Além disso, um repertório linguístico vasto fortalece a argumentação e oferece segurança nas interações humanas. Há uma diferença brutal entre repetir frases prontas e construir ideias próprias. Quem domina as palavras domina também as possibilidades de interpretação do mundo. E existe ainda um aspecto menos poético, mas profundamente relevante: aprender vocábulos novos exercita o cérebro, estimula conexões neurais e mantém ativa a capacidade cognitiva. Cada palavra recém-descoberta é quase um pequeno halter intelectual levantado pela mente.
“Desimportante”, contudo, provocou-me mais do que curiosidade lexical. A palavra parece definir um estado típico do nosso tempo. Vivemos cercados de urgências artificiais. Tudo exige atenção imediata: notificações, opiniões, escândalos passageiros, a foto do almoço de alguém que jamais veremos pessoalmente. Criamos uma civilização da relevância compulsória, na qual até banalidades reivindicam o estatuto de acontecimento histórico.
Nesse cenário, o “desimportante” surge como antídoto filosófico. Não significa exatamente aquilo que não possui importância. O desimportante é o que perdeu a gravidade excessiva que lhe atribuíamos. É o problema que parecia definitivo e depois revelou-se transitório. É a crítica que nos roubou noites de sono e hoje sequer lembramos. É a vaidade inflada que o tempo esvazia sem cerimônia.
A maturidade talvez consista justamente em aprender a classificar melhor o mundo. Há dores importantes, afetos importantes, escolhas importantes. Mas existe também um oceano de fatos desimportantes aos quais entregamos energia emocional desproporcional. E isso nos adoece. O excesso de relevância produz ansiedade; a sabedoria nasce da hierarquia.
Os antigos filósofos estóicos já ensinavam algo semelhante: não controlamos o mundo, apenas nossa reação diante dele. Talvez “desimportante” seja apenas uma atualização popular dessa velha lição clássica. Uma palavra simples, aparentemente improvisada, mas carregada de humanidade. Afinal, crescer intelectualmente não é apenas acumular conceitos sofisticados. Às vezes, amadurecer é descobrir que boa parte da vida merece menos drama e mais serenidade.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

