*Marcelo Teixeira
Há livros que não pedem aplauso, apenas consciência. Tempo de Colher Margaridas, de Marilurdes Martins Campesi (Lula), é desses. Em 134 páginas com 89 poemas, a autora constrói uma ética da colheita: tudo o que se planta — afetos, omissões, coragem, silêncio — retorna como margaridas no caminho. E colher, aqui, não é gesto bucólico. É prestação de contas.
A margarida branca, repetida como símbolo, além de flor, é memória e juízo. A estrada, por sua vez, deixa de ser paisagem e torna-se escolha. Caminhar implica decidir, que implica responder pelas consequências. O livro sugere que o tempo não absolve — ele devolve. A colheita é prova de vida e também de responsabilidade. Em tempos que terceirizam culpas, a poeta lembra que cada gesto é semente.
Um dos eixos mais instigantes é o poema da duplicidade, o “duas em mim”. Trata-se de condição humana. Somos feitos de comando e obediência, sonho e espera, chão e vertigem. A tensão não se resolve na teoria, mas na ação. A síntese possível é agir, mesmo sob conflito. A poetisa nos afasta da ilusão de pureza e nos aproxima da maturidade moral: escolher é sempre perder algo, mas é também afirmar-se.
Quando Lula escreve que “roubaram o olhar brilhante”, desloca o debate para além da nostalgia individual. A infância surge como capital simbólico coletivo. Não é apenas memória privada; é patrimônio social. Toda sociedade que obscurece o olhar das suas crianças compromete o seu próprio futuro. Há aqui uma ética pública do cuidado, um chamado à responsabilidade histórica diante das perdas de inocência e de educação.
A pedagogia do erro é outro ponto central. “Faça-se a sombra… faça-se a luz”, escreve a autora, sugerindo que ocultar pode evitar humilhações, mas expor pode impedir reincidências. Trata-se de uma ética madura da falibilidade. Errar não é fracassar; é oportunidade de consciência. Em uma cultura que exibe acertos e esconde quedas, o livro reivindica o valor formativo da falha. A sombra ensina; a luz orienta.
O cotidiano comparece com força simbólica: varais ao vento, ondas, tacho de doce. Dentro de cada mulher, diz a poeta, há uma festa. Ela reconhece e ressalta no feminino uma potência interior que organiza afetos e sustenta o mundo. O cuidado, frequentemente invisível, é apresentado como motor civilizatório.
No amor, a imagem de “um só vaso, uma só flor” aponta para comunhão sem anulação. E, na partida “em direção às estrelas”, a morte surge sem melodrama, como travessia inevitável. Colher, então, é rito de passagem entre o tempo vivido e o legado deixado.
A tese que atravessa o livro é simples e exigente: colher é assumir. Tempo de Colher Margaridas convoca o leitor à lucidez. Transformar pedras em ideias, vincos em mapas, linhas na testa em testemunhos. Não se trata de esperar flores; trata-se de reconhecer que fomos nós que as plantamos.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11



