*Marcelo Teixeira
Há algo simbólico na coincidência entre a mudança de uma casa e a celebração da Páscoa. Não se trata apenas de caixas, móveis e endereços novos, mas de uma travessia íntima — quase litúrgica — entre o que fomos e o que decidimos nos tornar. A vida não é feita apenas de acúmulos, mas também de escolhas sobre o que deixamos para trás.
A minha biblioteca pessoal sempre foi mais do que um conjunto de livros. Era uma espécie de autobiografia silenciosa. Cada obra carregava uma fase, uma inquietação, uma busca. Havia ali o entusiasmo juvenil por respostas definitivas, a maturidade que aprendeu a conviver com perguntas e até os momentos de refúgio em páginas que funcionavam como abrigo contra situações momentamente desafiadoras e até mesmo incompreensíveis.
Agora, diante da limitação concreta de espaço no novo lar, vejo-me obrigado a fazer o que antes parecia impensável: desfazer-me dessa biblioteca. O verbo, no entanto, engana. Não se trata de perda, mas de transformação. A Páscoa, afinal de contas, não fala de fim, mas de renascimento.
Desapegar-se de livros pode parecer, à primeira vista, uma contradição para quem acredita no valor do conhecimento. Mas talvez seja justamente o contrário. Livros guardados em estantes são conhecimento potencial; livros circulando são conhecimento vivo. Ao doá-los, permito que essas ideias, que um dia me atravessaram, encontrem novos leitores, novas interpretações, novos significados.
Há uma liberdade inesperada nesse gesto. Durante anos, a posse dos livros carregava também uma responsabilidade: conservá-los, organizá-los, protegê-los. Agora, ao libertá-los — e, de certa forma, libertar-me — percebo que o essencial nunca esteve no objeto físico, mas naquilo que ele despertou em mim.
A renovação pascal se manifesta, então, de maneira concreta: não apenas na fé ou na simbologia religiosa, mas na prática cotidiana de reavaliar o que realmente importa. A minha relação com a leitura não diminui; ela se transforma. Passa a ser mais fluida, menos dependente da posse e mais conectada ao ato em si. A partir de agora, leio no digital ou em livros impressos que cumprem o seu ciclo rapidamente e seguem adiante, como devem ser as boas ideias: compartilhadas, não aprisionadas.
Há, claro, uma dose de melancolia. Folhear um livro antigo é como reencontrar versões de si mesmo. Mas até essa nostalgia encontra sentido na lógica da renovação. Não somos mais aqueles leitores, assim como não somos mais as pessoas que habitaram a casa anterior.
A Páscoa ensina que a vida insiste em recomeçar, mesmo quando resistimos. E talvez amadurecer seja isso: compreender que acumular não é necessariamente sinônimo de crescer. Crescer, muitas vezes, é ter coragem de deixar ir.
Entre caixas vazias e estantes que já não existem, descubro que minha a verdadeira biblioteca nunca coube em um espaço físico. Ela segue comigo — invisível, reorganizada e, sobretudo, viva.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

