DEDICAÇÃO - Durante o terceirão, Estela chegou a estudar dez horas por dia, acreditando no sonho de ser médica COLABORAÇÃO

A jovem do campo que brilhou nos maiores vestibulares do Brasil

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ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Há pelo menos um ano, quando começou a pandemia do novo coronavírus, eles passaram a ser vistos como heróis. Graças aos esforços desses homens e mulheres que trabalham incansavelmente nos hospitais, pelo menos até ontem, mais de 10 milhões de brasileiros já haviam sido curados da covid-19, o que não torna menos assustadora a estatística de que, no País, número superior a 303 mil pessoas tenha perdido a vida na luta contra essa doença de efeito devastador em todo o mundo. Mesmo diante desse cenário, estar entre os profissionais da saúde, mais do que nunca, passou a ser sinônimo de uma missão: a de salvar vidas.
De tanto ver o esmero de gente desse ramo, uma jovem sitiante, na Região de Araçatuba, escolheu como carreira fazer parte desse time. O caminho até chegar lá se mostrava bastante desafiador. Seria preciso superar a distância de sua casa para escola, as oscilações da internet a partir do momento em que as aulas passaram a ser remotas e as dificuldades financeiras da família. Mas Estela Gasparotto Emiliano, moradora da pequena Braúna (5,6 mil habitantes), sonhou, acreditou e, aos 17 anos, conseguiu uma façanha. A menina que estudou a vida inteira em escola pública foi aprovada em medicina nos mais concorridos vestibulares do Brasil.
Foram duas vitórias, uma após a outra. Em 8 de março, a notícia de que passara no processo seletivo da Unicamp. Nove dias depois, a confirmação da aprovação na Fuvest, que assegura vaga na USP. Em ambos os exames, a garota concorreu pelo sistema de cotas. Na Universidade Estadual de Campinas, pela categoria EP + PP (Escola Pública mais Pretos e Pardos), enquanto no exame para a Universidade de São Paulo, no grupo PPI (Pretos, Pardos e Índios).
ESFORÇO
O resultado coroou todo o esforço para estudar ao longo do ensino médio. Nos primeiros dois anos, em 2018 e 2019, ainda sem o distanciamento social necessário durante a pandemia, Estela acordava às quatro e meia da manhã para cursar o ensino médio regular na Etec (Escola Técnica Estadual) de Araçatuba. Pegava o ônibus por volta das cinco e meia e, pouco antes das sete, chegava à instituição de ensino. A situação mudou no ano passado, quando a garota chegou ao terceirão. Nem sempre assistir às aulas virtuais era tarefa das mais fáceis. Muitas vezes a conexão à internet na casa de seus pais, que divide espaço com a plantação de batata-doce responsável pelo sustento da família, não permitia um acompanhamento satisfatório.
No entanto, não faltava dedicação à garota. A partir do momento que optou por medicina, sem frequentar cursinho preparatório para vestibular, mas sabedora da enorme concorrência que tinha pela frente, Estela passou a estudar, em média, dez horas por dia. “No primeiro ano, não estava muito certa da faculdade que gostaria, mas me organizei desde o início”, diz. “Com a pandemia, tive mais motivação”, afirma a estudante, ao falar sobre a opção por medicina.
Outra estratégia foi a autoavaliação. Um ano antes da começar a série final do ensino médio, Estela fez a prova da Fuvest e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) como treineira. Ainda em sua preparação, fez, como teste, as provas de anos anteriores da Unicamp.
CONSEQUÊNCIA
Por isso, quando saiu o resultado dos vestibulares, seu pai, o agricultor Matias Emiliano, 55 anos, que tem o ensino fundamental incompleto, não se surpreendeu. “Ele sempre me acompanhou, acreditou na minha capacidade e vê o estudo como forma de termos mais qualidade de vida”, conta a futura médica. Surpresa maior teve a mãe de Estela, a também agricultora Marlene Gasparotto Emiliano, 51, que estudou até o ensino médio. “Ela ficou emocionada”, diz Estela, filha mais velha do casal. Ela tem uma irmã, Gabriela, de 12 anos.
Boa leitora, também aplicada nas atividades de produção textual, Estela sempre se mostrou dedicada nas escolas onde estudou – a Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Adolfo Hecht, no ensino fundamental 1, e a EE (Escola Estadual) José Florentino de Souza, do sexto ao nono ano. Nascida em Penápolis, Estela conta que sempre encontrou, nestas instituições de ensino, professores que lhe estimulavam à leitura e mostravam o valor dos estudos.
Por isso, após tamanha conquista, gratidão é um sentimento que não falta a Estela. “Agradeço a Deus, aos meus pais e a todos os professores e funcionários das escolas pelas quais eu passei. O caminho é difícil, mas é preciso acreditar”, diz a agora universitária Estela.
MUDANÇA
A aprovação nos vestibulares mudou, já neste mês, a rotina da moradora de Braúna. A “sala de aula” criada em sua casa que, há até pouco tempo, servia de preparação para entrar no ensino superior, agora, é o espaço onde esse sonho se realiza. As aulas na Unicamp, onde optou por estudar, já começaram. Do período da manhã até às três horas da tarde, Estela passa conectada às aulas virtuais do curso. Até mesmo de uma “acalorada”, a tradicional festa de recepção aos novos estudantes, desta vez no ambiente on-line, ela participou.
A primogênita das meninas de Sr. Matias e Dona Marlene sabe dos novos desafios pelos próximos quatro anos. Por conta da pandemia, as aulas seguem remotamente por tempo indeterminado. Quando iniciarem de forma presencial, Estela terá de ir para Campinas e ainda decidir se escolherá alguma especialidade na área médica, o que pretende fazer ao longo da faculdade. Mesmo assim, ela não esconde a felicidade e dá a receita do sucesso: “Sim, foi fundamental ter feito as provas dos anos anteriores, mas ter acreditado e contado com apoio de professores de da família fez a diferença.”

EM CASA – Futura médica, em momento de lazer no sítio da família, em Braúna
colaboração

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