Antônio Crispim – Especial para O LIBERAL REGIONAL
Moradores de Araçatuba e de várias cidades da região sofreram com as longas estiagens de 2000/2001, 2024/2025 e 2021. O abastecimento foi comprometido, assim como diversas atividades econômicas, como a piscicultura e navegação. Hoje a situação é completamente diferente. O nível dos reservatórios chegou à normalidade, assim como o volume útil. O Rio Paraná, entre Castilho e Três Lagoas, voltou a subir e chegou a atingir alguns ranchos. Porém, nada comparado ao que aconteceu no passado. Há exatos 40 anos, no dia 12 de fevereiro de 1983, a Usina de Jupiá registrou vazão de 28.159 metros cúbicos por segundo. Isso equivale a 28 milhões de litros de água por segundo. Para se ter ideia, o recorde de vazão das Cataratas do Iguaçu foi 16 milhões de litros por segundo.
As enchentes no Rio Paraná são históricas, há relatos de muitos prejuízos no passado, tanto no lado de São Paulo como de Mato Grosso do Sul. Ribeirinhos de Castilho a Presidente Epitácio sofriam com a elevação do nível do caudaloso rio. Porém, essa realidade começou a mudar a partir de meados do século passado com a construção do Complexo Energético de Urubupungá (usinas de Jupiá e Ilha Solteira, no Rio Paraná) e Três Irmãos (Rio Tietê).
No início da década de 1950, o Estado de São Paulo avançava no processo de industrialização, principalmente com a chegada de grandes empresas multinacionais na região metropolitana de São Paulo. Porém, havia um problema: a baixa oferta de energia. Isso poderia impedir o desenvolvimento e retardar o processo de industrialização. O estado tinha várias pequenas usinas.
Para resolver o problema, o governo paulista encomendou estudos para construção de grandes usinas e criou a Centrais Elétricas de Urubupungá (abrangendo pequenas usinas) e depois a Cesp (Centrais Elétricas de São Paulo) e finalmente Companhia Energética de São Paulo. A Cesp assumiu o compromisso de construir usinas para gerar energia, instalar redes de transmissão e ainda teve o setor de distribuição, responsável pelos serviços em várias cidades paulistas e de Mato Grosso do Sul.
A construção de usinas implicava na formação de grandes reservatórios, embora algumas usinas (fio d’água), como Jupiá e Nova Avanhandava, não precisam do reservatório, pois são capaz de gerar energia com volume de água que chega da usina a montante (Ilha Solteira, nbo caso de Jupiá e Promissão, no caso de Nova Avanhandava). No entanto, os reservatórios permitem aproveitamento múltiplo, como atividades econômicas e o melhor gerenciamento do nível dos rios, que hoje é feito pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico.
A construção das usinas de Ilha Solteira e Jupiá no Rio Paraná e das usinas do RioTietê, além do Canal Pereira Barreto, permitiu a operacionalização da Hidrovia Tietê-Paraná (tramos sul e norte). Além disso, reduziram muito os impactos das enchentes. Apenas a jusante da Usina de Jupiá o problema persistiu. Muitas vezes não tinha como a segurar todo o volume de água e os estudos não eram tão precisos como hoje. A partir da formação do lago da Usina Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Mota), foi possível gerenciar melhor o nível dos reservatórios, com baixo impacto nas enchentes.
Histórico de cheias

As maiores vazões defluentes (turbinada e vertida) da Usina de Jupiá foram: 28.159 metros no dia 12 de fevereiro de 1983; 24.746, no dia 8 de abril de 1991; 21.224 no dia 27 de março de 1982; 16.715 no dia 8 de abril de 1992: 16.678 no dia 8 de fevereiro de 1992 e 16.632 metros cúbicos por segundo em 8 de fevereiro de 2007.
O brigadista de Castilho, Messias Donega, produz periodicamente o “Expedições”. São reportagens em lugares diferentes ou históricas e veiculadas em canal de rede social. Ele fez uma reportagem sobre a enchente de 1983, que está completando 40 anos e ouviu personagens que viveram o drama da enchente e que ainda estão em Castilho, como João Fialho, Pedro e Gino da Pousada. Todos eles tinham ligação com a Ilha Comprida, que ainda era habitada (hoje é uma reserva da Cesp). Eles relataram o drama de ver a água subindo e ter de tirar as famílias e animais às pressas. Usaram jangadas para retirada de veículos.
O Rio Paraná subiu mais de 10 metros, cobrindo muitos ranchos ribeirinhos. A Cesp mantinha o serviço Telecheia para divulgar a vazão e o nível do rio, além de equipes de orientação e socorro aos ribeirinhos. O socorro e assistência eram feitos também por equipes da Defesa Civil municipal e estadual. Muitas famílias ficaram alojadas em escolas de Castilho. OI ano de 1983 foi de enchentes durante os meses de fevereiro, março e abril.
Situação agora

A Usina de Ilha Solteira, que ficou vários meses com volume útil de 0% e chegou ao nível de 319 metros, no dia 8 de fevereiro (quarta-feira), estava com 66,56% de volume útil, 326,42 metros ao nível do mar e vazão de 7.123 metros cúbicos por segundo, sendo 2.365 vertida (sem geração de energia). Jupiá está com volume útil de 92,38% e vazão de 8.726 metros cúbicos por segundo, sendo 4.731 vertida. Já a Usina de Porto Primavera está com volume útil de 104,03% (isso explica a enchente em ranchos ribeirinhos de Castilho) e vazão de 9.788 metros cúbicos por segundo, sendo 3.875 metros cúbicos por segundo sem gerar energia. O problema é que a usina está recebendo mais água – 10.267 metros cúbicos por segundo – do que libera. Isso aumenta o volume do reservatório e causa inundações. A situação nos reservatórios do Rio Tietê é normal.

