*Marcelo Teixeira
Há uma ilusão confortável em acreditar que as nossas opiniões são fruto exclusivo da nossa autonomia intelectual. Como se cada convicção fosse uma planta nativa, brotada espontaneamente no solo da razão. No entanto, a história das ideias e das manipulações demonstra o contrário: pensamos, em grande medida, a partir das vozes que decidimos ouvir.
A escolha das fontes de informação e dos conselheiros de opinião é, portanto, um ato profundamente político e existencial. Não se trata apenas de decidir entre um jornal ou outro, entre um comentarista ou o seu antagonista. Trata-se de definir as lentes pelas quais o mundo será interpretado. E toda lente, por mais sofisticada que seja, também distorce.
O problema não está na existência de vieses, pois estes são inevitáveis. O risco reside na inconsciência deles. Ao consumir conteúdos que confirmam as nossas crenças prévias, entramos em um ciclo confortável de reafirmação. A dúvida, elemento essencial do pensamento crítico, cede espaço à certeza fácil, e esta, historicamente, é terreno fértil para erros graves.
Conselheiros de opinião — sejam eles jornalistas, influenciadores, acadêmicos ou líderes religiosos — carregam consigo não apenas argumentos, mas interesses, visões de mundo e, muitas vezes, agendas ocultas. Não há neutralidade absoluta, mas sim graus de honestidade intelectual. Saber distinguir um do outro é tarefa que exige esforço, repertório e, sobretudo, disposição para o desconforto.
A formação de conceitos e narrativas depende diretamente desse ecossistema informacional. Quando ele é plural, ainda que conflituoso, permite o amadurecimento do pensamento. Quando é homogêneo, tende à radicalização ou à simplificação excessiva da realidade. O mundo, complexo por natureza, passa a caber em slogans, que são atalhos perigosos para a ignorância sofisticada.
Na prática, isso significa que a responsabilidade pela qualidade do nosso pensamento não pode ser terceirizada. Não basta culpar “a mídia”, “as redes sociais” ou “os formadores de opinião”. Há uma escolha individual, cotidiana e silenciosa, que define o que lemos, ouvimos e compartilhamos. Escolher mal não é apenas um erro pessoal, mas sim contribuir para a circulação de distorções coletivas.
A história recente está repleta de exemplos em que narrativas enviesadas produziram consequências concretas: decisões políticas equivocadas, polarizações intensas e até rupturas institucionais. Em todos esses casos, havia uma base comum: a crença acrítica em fontes ou conselheiros que ofereciam mais conforto do que verdade.
Talvez o maior sinal de maturidade intelectual seja a capacidade de conviver com a dúvida e de revisar posições. Isso exige coragem. Afinal, é mais fácil permanecer fiel a uma narrativa do que admitir que fomos mal informados.
Escolher bem quem nos informa é, em última instância, escolher como queremos compreender o mundo e que tipo de cidadão desejamos ser. Porque, antes de formar opiniões, somos formados por elas.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

