*Marcelo Teixeira
Todos estão errados, sempre. Para tudo, há ao menos um comentário destrutivo, reclamação, apontamento à falha na atitude, procedimento, processo ou resultado. E o ciclo repete-se todo santo dia, para o deleite do crítico. Mas este quem é? Sou eu, você, ele, ela, nós. (Mal)Informados nas escolas rasas de balcões dos bares, das mesas de fraternais churrascos e dominicais almoços, das mídias sociais e aplicativos de mensagens, entendemos de tudo. Somos infalíveis psicólogos, líderes religiosos, técnicos de futebol, assim como economistas, administradores, políticos, médicos, advogados, jornalistas etc.
Em certa medida e guardadas as devidas proporções, nos assemelhamos a Leonardo Pataca, em “Memórias de um Sargento de Milícias” (Manuel Antônio de Almeida, 1854). Há quem diga que o protagonista do livro publicado durante o Romantismo no Brasil não faz constantemente juízos de valor sobre as outras personagens da obra. A afirmativa é que, na verdade, ele apresenta uma visão complexa e realista do mundo ao seu redor, incluindo as pessoas com quem ele interage.
De fato, Leonardo Pataca enxerga a vida e as pessoas ao seu redor de forma bem pragmática. Ele é capaz de perceber as fraquezas e os defeitos dos outros, mas também de reconhecer as suas qualidades e virtudes. Além disso, ele não é um personagem moralista, e não julga as outras pessoas de forma simplista ou preconceituosa.
Ao longo da obra, Leonardo tem contato com personagens de diferentes classes sociais e backgrounds culturais, e sua perspectiva sobre eles é sempre contextualizada pelas circunstâncias em que se encontram. Ele não é ingênuo, e muitas vezes reconhece as falhas das outras personagens, mas também é capaz de entender as razões por trás de suas ações – aqui nos afastamos da criação de Manuel Antônio de Almeida, pois este exercício de bom senso, via de regra, ninguém faz.
Em resumo, a perspectiva de Leonardo sobre as outras personagens de “Memórias de um Sargento de Milícias” é complexa, realista e contextualizada pelas circunstâncias da trama. Ele não é um personagem moralista ou preconceituoso, e sua visão sobre os outros é sempre informada pela sua experiência de vida e pelo seu entendimento da natureza humana. Há, portanto, raciocínio envolvido, doutrina filosófica (provavelmente), e não somente achismo, ressentimento, rancor, frustração e pecado capital inconfessável.
Há um distanciamento inteligível do ser humano real em relação a Leonardo Pataca, pois este faz os seus juízos por circunstância literária. Já nós, imperfeita espécie, gostamos de satisfazer a nossa necessidade de nos sentirmos seguros e confortáveis no nosso ambiente social, uma vez que tendemos a buscar padrões e categorias para simplificar a compreensão do mundo a nossa volta. Palavra de psicólogos.
Além disso, o juízo de valor pode ser uma maneira de as pessoas se diferenciarem e se destacarem em relação aos outros, estabelecendo sua própria identidade e opiniões. Isso pode ser especialmente importante em sociedades onde as pessoas são valorizadas por suas opiniões e habilidades sociais. Outro fator que também pode explicar o desejo humano de fazer juízos de valor é a tendência de categorizar e rotular as coisas para facilitar a compreensão e o processamento de informações. Fazer juízos de valor pode ajudar as pessoas a organizar suas crenças e pensamentos sobre o mundo ao seu redor.
No entanto, impreciso e injusto em grande parte (esmagadora maioria, permito-me afirmar), o juízo de valor é baseado em estereótipos, preconceitos e informações incompletas. Bom seria se, ao menos, contássemos com um grão das características fictícias de Leonardo Pataca. Assim, o juízo de valor sobre tudo e todos não seria, acima de qualquer outra definição, e lamentavelmente, o “esporte” preferido do ser humano.
*Marcelo Teixeira é jornalista e integrante da Academia Araçatubense de Letras (AAL)

