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quarta-feira, agosto 10, 2022

Minha gata metade

CINTHYA NUNES

Há cinco anos eu ganhei uma gatinha. Era minúscula. Pesava pouco mais de trezentos gramas. Segundo a amiga que a resgatou, bem como aos demais de uma ninhada de cinco, era mestiça de maine coon, uma espécie de gatos gigantes. Seria a terceira felina da casa. Eu esperava um gato gigante e trouxe para casa uma criaturinha que nem parecia de verdade. Demos a ela o nome de Mini.
Apesar de todos nossos esforços e dos veterinários da família, Mini viveu apenas mais algumas semanas. Tal como os outros três irmãos, era doente. Chorei demais por aquela vidinha tão frágil que não consegui salvar. Minha gigante em miniatura fora resgatada em condições muito insalubres, de total abandono. Eu esperava ter sido capaz de salvá-la, mas não fui.
Para minha surpresa, uma única gatinha daquela ninhada havia sobrevivido. Era frajolinha tal qual outra de minhas gatas. Titubeei em aceitar adotá-la. E se acontecesse a mesma coisa? Minha amiga me garantiu que a morte da Mini e dos irmãos era decorrente de alguma doença contraída logo ao nascerem. Dias depois, eu carregava nas mãos uma bolinha de pelo branco e preta, torcendo para que o destino tivesse outros planos para ela. E de fato, ele tinha, mas nada seria fácil.
Durante dois meses Nina ficou doente de algum modo praticamente todos os dias. Pegou conjuntivite nos dois olhos, teve problemas de pele, de intestino. Precisou tomar antibióticos, suplementos, injeções e mais outros cuidados. Dediquei-me a ela com afinco e logo estava apaixonada. Brincalhona, gulosa e valente, Nina superou os percalços, ganhando peso e crescendo.
Talvez ela tenha realmente sangue de gigantes, mas não cresceu como um. Tem uma compleição forte, no entanto, tal qual uma baixinha marombada. O comportamento, inegavelmente, é de um cachorro. Vai receber as visitas na porta, brinca de rolar bolinhas que carrega de um lado para o outro e pelo visto, pensa que é um cão, fazendo das minhas cachorras suas companheiras constantes.
Amo todos os meus animais de estimação, mas Nina e eu temos uma relação mais forte, do tipo que me faz ter saudades dela sempre que eu viajo. Assim que retorno ela se mostra ressentida pela minha ausência e somente após algumas horas é que se digna a se aproximar de mim. Ela me segue por todos os lados, inclusive exigindo participar dos meus momentos íntimos ao banheiro, por exemplo. Fica no meu colo, ronronando e exigindo carinho, pouco se importando com a singularidade, por assim dizer, de tal momento.
Nina escolheu também um lugar bem específico para dormir. Aparentemente sou um bom travesseiro. Nos dias frios isso é um bônus interessante. Já nos dias de calor, é como ter um aquecedor portátil acoplado ao corpo. Ainda assim, é uma rotina que me reconforta diariamente.
Gulosa, para pedir os petiscos dos quais tanto gosta, Nina resolveu me presentear com folhas que pega no quintal. Entra pela casa correndo, segurando a folha na boca e começa a miar orgulhosa, esperando a devida recompensa pelo feito glorioso. Há dias nos quais encontro trilha de folhas secas e na ponta delas uma gatinha indignada pela falta de reconhecimento instantâneo.
Não pude salvar a Mini, é fato. O destino é um fado insondável, mas a Nina, de muitas formas, me salva todos os dias.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e tem uma paixonite correspondida por uma mini gigante cinthyvanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

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