*Marcelo Teixeira
Há algo de profundamente contemporâneo — e, ao mesmo tempo, ancestral — na arte de dizer muito com quase nada. Em “Uns poucos contos curtos”, Reynaldo Mauá Júnior parece compreender esse paradoxo com rara lucidez. Com 183 páginas e 174 textos, o livro é um exercício de contenção, inteligência e ironia, elementos que, quando bem dosados, produzem mais impacto do que longas elaborações.
A literatura sempre foi pródiga em gêneros, cada qual tentando capturar a realidade ou a ficção — ou a fusão das duas — com ferramentas próprias. O conto, por exemplo, consolidou-se como forma breve, intensa e emocional. Contudo, o que vemos aqui é um passo além: o território ainda fluido do miniconto — também chamado de microconto, nanoconto, microrrelato ou minificção. A multiplicidade de nomes revela, talvez, a dificuldade de aprisionar em conceitos algo que escapa por natureza. O miniconto é mais uma experiência do que um formato.
Reynaldo Mauá Júnior demonstra domínio dessa prática minimalista com notável segurança. Os seus textos, como “Blefe”, “Dor de Amor”, “Cartografia” ou “Je T´aime Mon Non Plus” são provocações, para além de narrativas comprimidas. Ao leitor, não basta ler — é preciso completar, interpretar, preencher silêncios. Há aqui uma inversão interessante: o autor escreve menos para que o leitor pense mais. E isso, convenhamos, é um raro gesto de confiança intelectual.
No prefácio, Antônio Soares dos Reis aponta a versatilidade do autor — poeta, cronista, articulista e agora minicontista. Mas talvez o mais interessante não seja a soma dessas identidades, e sim o que emerge delas: uma escrita que sabe transitar entre o humor e a reflexão, entre o cotidiano e o filosófico. Em textos como “Sobrepeso”, “Civilidade” ou “Impaciência”, percebe-se um olhar agudo sobre os hábitos humanos, quase como um espelho desconfortável que, ao mesmo tempo, diverte.
Os contos são curtos; mas de forma alguma, pequenos, como afirma Toninho. A brevidade aqui não é limitação, mas estratégia. Cada linha carrega um convite à pausa, à releitura, ao pensamento. Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, o miniconto surge como antídoto: rápido na forma, profundo no efeito.
Talvez o maior mérito da obra seja este: ela não pretende encerrar significados, mas abri-los. Ao final, o leitor não sai com respostas prontas, mas com perguntas mais refinadas. E isso, em literatura — como na vida — é um sinal inequívoco de inteligência.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

