*Marcelo Teixeira
Há semanas que não passam — atravessam. A passada foi uma delas, quando pessoas conhecidas partiram, deixando não apenas a ausência, mas o peso do anúncio. Porque a morte, em si, já é definitiva; difícil mesmo é a travessia da notícia até o outro. Como dizer que alguém não está mais aqui? Como transformar o irreversível em linguagem?
A comunicação da morte oscila entre dois polos: a objetividade seca e a metáfora cuidadosa. Ambas têm seu lugar — e seus riscos. Dizer “ele morreu” é um ato de precisão. Não há ruído, não há dúvida. A linguagem direta respeita a verdade e evita mal-entendidos. Em contextos práticos, como hospitais ou situações emergenciais, essa clareza é necessária. A morte não admite eufemismos quando decisões precisam ser tomadas.
Mas a vida humana não é feita apenas de precisão. É feita de vínculos. E, nesses territórios afetivos, a palavra pode — e talvez deva — ser mediada. Expressões como “ele partiu”, “ela descansou” ou “nos deixou” funcionam como almofadas simbólicas. Não alteram o fato, mas suavizam o impacto inicial. São formas de oferecer tempo ao coração antes que a razão assimile o golpe.
No entanto, há um limite sutil entre suavizar e esconder. A metáfora excessiva pode confundir, sobretudo em crianças ou em pessoas emocionalmente fragilizadas. Dizer que alguém “foi viajar” pode gerar expectativas irreais. A intenção de proteger não pode distorcer a compreensão. A ética da comunicação exige equilíbrio: nem brutalidade desnecessária, nem poesia que obscurece.
O contexto define o tom. Um amigo íntimo talvez mereça a franqueza acompanhada de presença: “Tenho uma notícia difícil”. Já em grupos mais distantes, a mensagem escrita tende a buscar neutralidade respeitosa. Em todos os casos, a forma é tão importante quanto o conteúdo. Não se trata apenas do que se diz, mas de como e quando se diz.
O filósofo francês Vladimir Jankélévitch escreveu que a morte é “o irreversível absoluto”. Diante dela, toda linguagem é insuficiente. Ainda assim, insistimos em falar — não por domínio, mas por humanidade. Comunicar a morte é, paradoxalmente, um gesto de cuidado. É reconhecer que a dor compartilhada, embora não diminua o fato, diminui a solidão.
Talvez não exista a maneira perfeita de dar uma notícia assim. Existe, sim, a mais adequada para cada relação, para cada história, para cada momento. Entre a palavra e o silêncio, escolhemos falar — com respeito, com sensibilidade e, sobretudo, com verdade. Porque, no fim, não é apenas sobre a morte. É sobre os vivos que ficam e precisam, pouco a pouco, aprender a continuar.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

