*Marcelo Teixeira
Sei que não deveria, mas me chateia ouvir que Deus pune e castiga por causa de um erro menor – e mesmo por pecado qualquer. Pior, que ele prejudica um filho seu retornando a este o mal feito a outro, numa espécie de “lei do retorno” cujo julgamento e execução da pena cabe a Ele. A crença de que cada ação gera uma reação alimenta um ciclo, um mecanismo compensatório que equilibra as nossas ações em sociedade e no universo, sob as graças de Deus. E sob o argumento do “aqui se faz, aqui se paga” há celebração do desespero alheio.
Recuso-me a acreditar em um Deus vingativo e implacável, como no conto “A Volta do Marido Pródigo” (Sagarana, de Guimarães Rosa) no qual o personagem principal, Ribeirão, descreve-o como um ser cruel e implacável, que o castiga severamente pelos seus pecados. Ribeirão vê Deus como uma entidade que não oferece misericórdia no seu julgamento e punição. Nessa obra especificamente, o autor explora temas religiosos e apresenta uma visão crítica sobre a relação entre os indivíduos e o divino, retratando Deus de forma negativa.
Quantos são os Ribeirões? Chego a pensar que podem ser a maior parte de nós, que comemoramos o infortúnio alheio ou mesmo a passagem dada circunstância natural, como se fosse sentença divina em resposta a falhas nas relações humanas. Ignorar os sentimentos e os direitos dos outros, agindo de forma desrespeitosa ou mesmo agressiva, isto sim é crueldade.
Prefiro o Deus retratado no texto do autodeclarado médium mexicano Francisco Javier Ángel Real, conhecido pelo pseudônimo de Anand Dilvar (Conversaciones con mi Guía, pág. 14) e erroneamente atribuído ao filósofo Baruch Spinoza – para este, a divindade revela-se por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens.
Independentemente da autoria, gosto da mensagem, sendo que um trecho resume o Deus com o qual me identifico, ao contrário daquele ególatra cultuado por Ribeirão: “Pare de ter medo de mim! Eu não o julgo, nem o critico, nem me irrito, nem o incomodo, nem o castigo. Eu sou puro Amor.”
*Marcelo Teixeira é jornalista e integrante da Academia Araçatubense de Letras (AAL)

