*Marcelo Teixeira
Riobaldo, o jagunço filósofo de Grande Sertão: Veredas, oferece ao leitor um profundo mergulho na alma brasileira. Em meio a batalhas, travessias e dilemas existenciais, há um fio que conduz a sua narrativa: a confiança cega — e ao mesmo tempo intuitivamente crítica — que deposita em Diadorim. Mesmo diante de atitudes que despertariam suspeitas em qualquer outra pessoa, Riobaldo permanece leal, confiante, entregue. E, ainda assim, o narrador demonstra uma sensibilidade aguda: percebe o que não se diz, capta silêncios, decifra gestos. A relação entre os dois não é de ingenuidade, mas de uma confiança construída na tensão entre o saber e o sentir. Confiar, mesmo com dúvidas.
Esse paradoxo — confiar desconfiando e desconfiar confiando — revela muito sobre a natureza humana e sobre os alicerces das relações que cultivamos na vida pessoal, social e profissional. A confiança, ao contrário do que muitos pensam, não é um estado absoluto nem um salto no escuro. Trata-se de uma construção contínua, feita de sinais, provas, experiências partilhadas e, principalmente, de coerência entre o que se diz e o que se faz.
Em uma época marcada pela velocidade da informação, pela superficialidade dos vínculos e pelo culto às aparências, confiar tornou-se um exercício sofisticado. Exige da parte confiante não a passividade de quem se entrega sem reservas, mas a lucidez de quem escolhe acreditar, ainda que atento aos sinais do real. Essa confiança madura não é sinônimo de credulidade, mas consequência da leitura cuidadosa do outro: sua probidade moral, sua sinceridade, sua lealdade, sua competência, sua discrição.
Nas relações pessoais, por exemplo, a confiança nasce com a convivência e se consolida nas pequenas provas do cotidiano. Não se trata apenas de acreditar que o outro não nos trairá, mas de saber que ele estará presente quando a tempestade vier. Desconfiar, nesses casos, não é acusar, mas observar: os desvios, as omissões, os silêncios que ferem a coerência. É o tipo de desconfiança que cuida da confiança, como quem poda a planta para que ela cresça mais forte.
No ambiente social, sobretudo nas redes digitais, a confiança tornou-se frágil. Seguimos pessoas que não conhecemos, compartilhamos informações sem checagem e entregamos opiniões a quem sequer saberíamos reconhecer num encontro casual. Nesse cenário, desconfiar é um dever cívico. É questionar o que é dito, buscar fontes confiáveis, resistir ao impulso do compartilhamento instantâneo. Confiar, aqui, só pode ser fruto de uma vigilância ética e intelectual. É preciso desconfiar, para então, quem sabe, confiar.
No campo profissional, a confiança é o cimento das equipes de alta performance. Empresas que cultivam ambientes baseados no controle excessivo, na microgestão e na desconfiança constante sabotam a própria produtividade. No entanto, confiar sem critério também pode levar a colapsos silenciosos. O equilíbrio saudável está na capacidade de reconhecer talentos, estimular a autonomia e, ao mesmo tempo, manter sistemas de verificação e feedback. Um líder eficaz confia em sua equipe, mas não abandona os indicadores de desempenho. Da mesma forma, um colaborador confia na sua chefia, mas observa os rumos éticos e estratégicos da organização. Nesse contexto, desconfiar confiando é um ato de responsabilidade mútua.
Guimarães Rosa nos ensinou que o sertão está em toda parte — dentro de nós, nas escolhas que fazemos, nos labirintos da alma humana. O dilema de Riobaldo diante de Diadorim é, na verdade, o dilema de todos nós: como confiar sem sermos tolos? Como desconfiar sem nos fecharmos ao afeto, à cooperação, ao vínculo? A resposta talvez esteja no próprio caminhar, no processo contínuo de conhecer e reconhecer o outro, sem pressa, sem fanatismo, com vigilância e generosidade.
Confiar desconfiando e desconfiar confiando não é uma contradição, mas um convite à maturidade. É o reconhecimento de que a confiança verdadeira nasce do encontro entre a fé no outro e o senso crítico sobre o mundo. É, enfim, a coragem de amar com os olhos abertos.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa da Cadeira 11

