*Marcelo Teixeira
A um amigo que tem uma esposa brava – muito brava -, perguntei o segredo da convivência. “Eu concordo com tudo o que ela diz… e depois, aos poucos, vou discordando, sem provocá-la, claro”, disse. Com ele aprendi que há um gesto sutil e poderoso em qualquer debate: ouvir. No mundo contemporâneo, em que cada um deseja falar mais alto do que o outro, o simples ato de escutar tornou-se quase revolucionário. Concordar para discordar não significa abdicar das próprias convicções, mas reconhecer que, antes de rebater um argumento, é preciso compreendê-lo em sua inteireza. Só assim a discordância se torna legítima, construtiva e civilizada.
Concordar para discordar é uma estratégia de convivência social. Não se trata de ironia ou manipulação, mas de um exercício de empatia intelectual. Quem ouve o outro até o fim e reformula o pensamento alheio em palavras próprias, demonstra duas virtudes raras: respeito e capacidade de raciocínio. O primeiro é a base da vida em sociedade; o segundo, a essência do debate honesto. Nesse contexto, discordar deixa de ser ataque e passa a ser contribuição.
No entanto, vivemos uma era de polarizações em que o contraditório é visto como agressão. A divergência virou sinônimo de inimizade. Esquecemos que a democracia não é o regime da unanimidade, mas espaço institucionalizado do dissenso. Concordar para discordar é, portanto, aceitar que o outro pode ser racional e digno mesmo quando pensa diferente. O reconhecimento da humanidade do interlocutor é pré-condição para qualquer diálogo verdadeiro.
Respeitar não significa concordar. O respeito é a moldura do debate, não a submissão do pensamento. Ao dizer “compreendo sua posição, mas discordo por tais razões”, criamos pontes em vez de muros. Não se trata de enfraquecer argumentos, mas de fortalecê-los, uma vez que só um discurso que suporta o contraditório se mostra realmente sólido. A arrogância, ao contrário, empobrece.
Vale lembrar que as grandes transformações do mundo nasceram de discordâncias civilizadas. A ciência avança porque alguém ousou questionar teorias aceitas. A filosofia floresce porque mentes discordaram dos dogmas do tempo. A política se renova quando há espaço para a oposição responsável. Sem a arte de discordar, restam apenas o silêncio dos submissos e o grito dos autoritários.
Concordar para discordar é, portanto, uma lição de maturidade. Implica domar o ego, abrir espaço para o outro e aceitar que não somos donos da verdade. O respeito não garante consenso, mas assegura convivência. E talvez seja justamente disso que mais precisamos: menos certezas gritadas e mais discordâncias serenas. Afinal, o que enriquece não é vencer a discussão, mas aprender com ela.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado, escritor e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

