*Marcelo Teixeira
Após a sessão de terapia, o debate me levou à reflexão. Eu queria dar nome a uma determinada situação e ele tentou me convencer que bastava entender o que estava ocorrendo, independentemente da designação. De fato, relevante era e é compreender e trabalhar a questão, mas nominar facilita “as coisas” para mim.
Desde o instante em que o ser humano pronunciou as primeiras palavras, deixou de apenas existir para começar a compreender. Nomear foi o primeiro gesto de organização do mundo. Antes da palavra, havia apenas o caos da experiência; depois dela, surgiu a possibilidade da memória, da transmissão do conhecimento e da construção da civilização. Dar nome às coisas nunca foi um simples exercício de linguagem. Sempre foi um ato de inteligência.
Uma doença desconhecida provoca medo. Quando a ciência a identifica, descreve os seus sintomas e lhe atribui um nome, ela deixa de ser um mistério absoluto para tornar-se objeto de estudo, tratamento e esperança. O mesmo ocorre com os sentimentos. Quantas pessoas passaram séculos acreditando que eram fracas, estranhas ou incompreensíveis até descobrirem que aquilo que experimentavam possuía uma designação: ansiedade, luto, depressão, burnout, fobia ou síndrome do impostor etc. O nome não elimina a dor, mas oferece um mapa para compreendê-la.
A classificação é uma das mais sofisticadas conquistas do pensamento humano. Desde a taxonomia das espécies até a tabela periódica da química, dos diagnósticos médicos às categorias do direito, a humanidade avança porque distingue, organiza e estabelece critérios. Não há ciência sem classificação. Não há filosofia sem conceitos. Não há justiça sem definições. Aquilo que permanece sem nome resiste ao entendimento e frequentemente alimenta o preconceito, a superstição ou a desinformação.
Naturalmente, há quem imagine que nomear seja limitar. Afinal, ao definir algo, parece que reduzimos a sua complexidade. Entretanto, ocorre justamente o contrário. O nome é apenas a porta de entrada para uma realidade muito mais ampla. Ninguém conhece uma floresta apenas porque sabe o nome de suas árvores, mas dificilmente conseguirá estudá-la se não souber distingui-las. O conhecimento começa na identificação e amadurece na interpretação.
Até mesmo as experiências mais subjetivas dependem dessa capacidade. O amor possui inúmeras manifestações; a tristeza apresenta incontáveis nuances; a coragem pode assumir formas silenciosas. Quanto mais rico é o nosso vocabulário, mais refinada se torna a nossa percepção da realidade. A linguagem não apenas descreve o mundo; ela amplia a nossa capacidade de percebê-lo.
Há, ainda, um aspecto ético nesse processo. Dar nome às injustiças permite combatê-las. Identificar a violência, o preconceito, a corrupção ou a exclusão social impede que sejam tratados como fatos naturais ou inevitáveis. Aquilo que é reconhecido pode ser debatido; aquilo que é debatido pode ser transformado.
Talvez essa seja uma das maiores virtudes do conhecimento humano: transformar o desconhecido em algo compreensível. Cada palavra representa uma pequena vitória sobre a ignorância. Nomear não significa encerrar um assunto, mas inaugurá-lo. Afinal, aquilo que conseguimos designar deixa de ser apenas uma impressão difusa para tornar-se objeto da razão, da reflexão e, sobretudo, da possibilidade de mudança. É por isso que dar nome às coisas é, antes de tudo, um gesto de liberdade intelectual.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11



