*Marcelo Teixeira
Propósito e honestidade na política partidária parecem, frequentemente, conceitos exilados do mundo real. Quando observamos o cenário eleitoral, a sensação é a de que estamos diante do mito de Sísifo: empurramos a pesada pedra da moralidade montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta ao vale dos interesses particulares. O desejo por uma nova cultura política colide, invariavelmente, com a engenharia do poder, que se alimenta de conveniências, não de virtudes.
Mudar a cultura de um sistema corrupto não é uma tarefa de engenharia mecânica; é uma disputa de mentalidades. E as estruturas tradicionais são historicamente resilientes. Olhar para o passado nos ajuda a entender que o nosso desencanto atual não é um privilégio da contemporaneidade.
Vejamos o exemplo de James Garfield, o 20º presidente dos Estados Unidos, eleito em 1880. Garfield assumiu a Casa Branca com o firme propósito de combater o spoils system — a nefasta máquina de clientelismo e patronato político onde cargos públicos eram distribuídos como espólios de guerra para aliados, independentemente da competência. Garfield buscou instaurar uma lógica baseada no mérito e na integridade, desafiando caciques poderosos do seu próprio partido, que viam o Estado como um balcão de negócios privados.
A tentativa de Garfield de respirar uma nova ética na política partidária cobrou o preço mais alto. Em 182d, poucos meses após a posse, ele foi baleado por Charles Guiteau, um advogado instável que se considerava injustiçado por não ter recebido um cargo consular. O atentado contra Garfield foi o ápice trágico de uma cultura que não aceitava a impessoalidade e a honestidade como moedas de troca.
O sacrifício de Garfield acabou impulsionando a aprovação da Lei Pendleton em 1883, que deu início à reforma do funcionalismo público americano. No entanto, o episódio deixa uma lição indelével: as estruturas baseadas no fisiologismo — a troca de favores políticos — reagem com violência, seja ela física ou institucional, quando seus privilégios são ameaçados.
Estabelecer uma política de propósitos exige mais do que a eleição de um “salvador da pátria” honesto. Exige a transformação de uma sociedade que muitas vezes condena a corrupção no macro, mas tolera o pequeno privilégio no micro. Enquanto o voto for encarado como um investimento privado para retornos particulares, e não como um pacto civilizatório, continuaremos a assistir à tragédia de Garfield se repetindo nos bastidores do poder. A honestidade na política não nasce por decreto; ela viceja quando a hipocrisia social finalmente cede lugar à coerência ética.
Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

