*Marcelo Teixeira
Os meus dias estão cada vez mais corridos em razão das atividades profissionais. Isso fez com que ficassem comprometidos os meus momentos de entretenimento, lazer, atividade física e de descanso. Pelo que percebo, isto ocorre com quase todo mundo com quem converso. Notando o meu esgotamento se aproximando, tomei a decisão de me disciplinar a fazer o que é preciso ser feito, equilibrar as minhas ações diárias. Estou retornando gradativamente às atividades físicas, descansando, divertindo-me e lendo mais. Até me surpreendi com a leitura de seis livros nos últimos 30 dias.
É aqui que quero me ater. Vou chover no molhado, mas sinto que é preciso falar da importância da leitura, referindo-me mais especificamente à literatura ficcional e não à técnica profissional.
Ler ficção não é fugir da realidade, mas im encontrar maneiras diferentes de habitá-la. Um romance, um conto ou uma novela nos leva a acompanhar vidas que não são as nossas, mas cujos conflitos, desejos e perdas reconhecemos. Ao nos aproximarmos de personagens diversos, exercitamos a imaginação e a capacidade de perceber o mundo por perspectivas que nunca fossem as nossas. Essa experiência amplia a empatia sem transformar a leitura em aula ou obrigação.
A literatura também oferece espaço de pausa. Em vez de apenas atravessar telas e informações, acompanhamos uma história no ritmo das páginas, atentos às palavras, às ambiguidades e aos silêncios. Esse tempo concentrado pode organizar pensamentos e devolver sossego a uma rotina acelerada. Não afirmo que um livro resolva o cansaço ou substitua descanso, convivência e cuidado. Falo por mim afirmando que pode ser uma forma prazerosa de recuperar a atenção e de estar consigo mesmo.
Há a liberdade de escolher. Não precisamos ler os clássicos por dever, terminar um livro que não nos toca, nem transformar páginas lidas em meta de produtividade. Cada pessoa pode encontrar o seu caminho entre gêneros, autores e épocas, guiada pela curiosidade. Os seis livros que li em um mês não são medida para ninguém: foram apenas um sinal de que, quando abro espaço, a leitura volta a caber nos meus dias.
Por isso, defendo a ficção como parte de uma vida equilibrada, não como mais uma tarefa na agenda. Ela entretém, inquieta, consola e, às vezes, muda a forma como vemos o cotidiano. Não é preciso esperar férias ou hora perfeita: algumas páginas antes de dormir podem inaugurar esse encontro. No fim, ler histórias alheias também nos ajuda a compreender a nossa própria história.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado, escritor e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a cadeira número 11

