Rubens Bizarro Romariz
“ O que torna as pessoas pouco agradáveis na conversa é que cada uma pensa mais no que vai dizer do que naquilo que o outro diz.” ( La Rochefoucauld)
Aprendi em didática que quando se reúnem duas ou mais de pessoas, o importante é ouvir primeiro. Houve um tempo em que tinha o hábito de frequentar a sauna aos sábados. Ali, reúnem homens de todas as idades. As palavras se transformam numa salada coletiva. Trata-se de tudo – futebol, política, sexo sólido e frágil, novela, plantio, preço de gado, pescarias, filmes, religiões e até os defensores dos gays.
Aos poucos vamos percebendo verdadeiros embaixadores da verdade. Até a mentira fica sendo aceita como verdade. A sauna é na verdade uma terapia de grupo, mesmo sendo regada com muito calor pra-lá e cerveja gelada pra-cá. O importante é que sempre termina em risos. Aconselho a todos aqueles que só ficam em casa, que vão também a sauna, sob pena de terem um esgotamento televisivo global.
Outro dia, conversei com dois carroceiros que contentes, transportavam entulhos de uma residência. Aconselho também como terapia mental a gente às vezes conversar com pessoas simples. Elas nos fazem perceber que o mundo não está prestes a terminar. Naquele momento, os dois estavam falando sobre burros. Cada um valorizava o seu quadrúpede com qualidades ímpares. Chegaram a dizer que nem por dez mil reais venderiam. Informaram-me ainda que cada um consome 4 quilos de milho por dia.
Foi assim que foram explicando que o burro é filho da jumenta com o cavalo. Que se forem bem tratados pode durar até 40 anos. Disseram-me ainda que um burro nunca pode ser pai, mesmo cobrindo 20, 30 éguas. Eles não se reproduzem.
Por instantes percebi que tanto os da sauna como os dos burros, são parecidos quando falam. Torna-se um absurdo em querer entender a unidade nacional. É como querer entender a justiça, onde um investiga e prende e o outro solta e o outro prende e o outro solta quando o corrupto é do colarinho branco.
Agora em tempo depois das eleições, percebo que os homens falam, mas são poucos os que escutam. Preocupo-me também pelo fato de nossa maioria ser formados de homens simples. Simples de coração, simples de não perceberem a malandragem políticas, apercebem-se sempre como se fossem crianças, apenas o concreto. Não fazem síntese, não sabem associar os fatos e poucos lêem, e se lêem poucos entendem.
Esquerda e direita não mais existe. O que existe é um pacote de “Partidos!” É um país carente em educação integral de creches, de escola infantil, de educação profissionalizante, e o pior as escolas fecham as portas nas sextas feiras, e os alunos só voltam à escola na segunda feira.
O que existe, é uma renda nacional concentrada nas mãos de poucos, onde os bancos jogam e ganham com os juros, que a inflação camuflada que suga os mais pobres, que as corrupções praticadas pelo governo beneficiam os grupos amigos e generosos, que os meios maiores de comunicação trabalham também atrelados a interesses particulares.
Triste, muito triste pensar em democracia quando na política a verdade é mentira e a mentira é verdade, e a liberdade caminha sem freios. Para entender os burros é preciso primeiro a ouvi-los. Um bom sábado e domingo aos nossos leitores do “O Liberal.”
RUBENS BIZARRO ROMARIZ É PROFESSOR, CRONISTA E ESCRITOR. ESCREVE PARA O LIBERAL REGIONAL
rb.romariz@gmail.com

