Marcelo Teixeira
Morreu Zagallo (1931 – 2024). Partiu aos 92 anos, sendo reverenciado como um dos maiores nomes da história do futebol. Descansou. Chamou-me a atenção o verbo utilizado em praticamente todos os textos noticiosos que li sobre a passagem do ‘Velho Lobo’. Parece-me que a origem histórica do termo remonta ao latim, mais especificamente à expressão ‘Requiescat in pace’ (R.I.P.), que significa ‘descanse em paz’ em português. É comumente utilizada como forma de homenagem a pessoas falecidas, sendo que, na tradição bíblica, acaba sendo associada ao descanso de Deus no sétimo dia, após a conclusão da sua obra de criação. Culturalmente relacionado a rituais fúnebres cristãos, carrega a medida na qual se espera que a alma da pessoa falecida encontre paz eterna após a passagem pela vida terrena.
Para além do momento de ‘tranquilidade’ e finalização, a expressão ‘descansar em paz’ também pode ser vista como uma forma de enfrentar a dor da perda, transformando-a em saudade e memória. E, sendo a saudade parte integrante da experiência humana, o descanso em paz pode ser visto como um momento de reconhecimento e valorização da vida de quem foi perdido, bem como um momento de consolo para os que ficam. É assim em ‘Dom Casmurro’ (1899), de Machado de Assis, quando no capítulo 55 – Um soneto, a expressão ‘descanse em paz’ é utilizada por Bentinho em referência emocional à esposa Capitu. O capítulo é marcado por reflexões do protagonista sobre a passagem do tempo, a vida e a morte da companheira.
Reflito ainda sobre a possibilidade de ‘descansar em paz’ ser associado à ideia de fim de uma jornada intensa e cheia de desafios, representando a morte como um momento de tranquilidade e liberação após o fim de uma batalha diária pela sobrevivência. Ele transmite a ideia de que a pessoa finalmente se libertou das preocupações e dores do mundo terreno. Portanto, a sua utilização traz consigo uma carga simbólica que reflete a visão de descanso como libertação e alívio do sofrimento humano.
A vida moderna é caracterizada por inúmeras ações e batalhas diárias pelos seres humanos, e o descanso em paz pode ser visto como um momento de consolo e celebração da vida, mesmo no momento da transição para o além. ‘Descanse em paz’ pode denotar o fim de um fardo, a libertação das obrigações e tensões diárias, um suspiro de alívio diante de uma vida agitada e muitas vezes exaustiva. Pode ser interpretado como uma transição para um estado livre de aflições, onde não há mais dor, limitações físicas ou emocionais.
Seja como conforto espiritual ou um simples desejo de tranquilidade após o fim da vida, ‘descanse em paz’ é mais do que uma frase comum de condolências. É um reflexo da compreensão humana da morte como parte da jornada e um desejo de paz e liberdade, seja na transição após o sofrimento físico ou como uma metáfora para o término das lutas diárias na vida contemporânea. Ela transcende o uso comum e convida à reflexão sobre a complexidade da existência humana, da transitoriedade da vida e da busca pela serenidade, seja na morte ou na superação das tribulações cotidianas.
*Marcelo Teixeira é jornalista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras



