Lei garante presença de doulas em hospitais públicos e privados de Araçatuba

Uma atividade tão antiga e que se perdeu com o passar do tempo, a doula é uma assistente que acompanha a gestante do pré-natal até os primeiros meses após o parto. Ela pode ter ou não formação médica e seu foco é no bem-estar da mulher e do bebê. Antes do parto passar da esfera familiar para a esfera médica, esse papel era desempenhado por mulheres mais experientes, como mães, tias e avós, que acompanhavam outras grávidas e passavam as semanas após o nascimento ajudando com os afazeres domésticos e cuidando de outras crianças.
Mas o lugar da família na hora do parto mudou, uma vez que as cesárias se tornaram comuns no Brasil, e as doulas foram substituídas por uma equipe obstétrica formada por médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e pediatra. Entretanto, nos últimos anos o papel da doula voltou a popularizar e muitas gestantes estão preferindo partos naturais, também chamados de humanizados, à cesárea.
Em Araçatuba a profissão de doula ganhou um forte apoio nesta semana. O prefeito Dilador Borges sancionou lei de autoria da vereadora Beatriz Soares (Solidariedade) que autoriza a presença delas em maternidades públicas e privadas do município no período de trabalho de parto, durante e no pós-parto imediato. Conforme o texto, a doula poderá prestar seus serviços sempre que a parturiente solicitar e adentrar os espaços onde sua cliente estiver. Caso ela seja barrada, o hospital será multado em até três salários mínimos e o valor arrecadado com a multa será transferido para o Fundo Municipal de Saúde.
A autora da lei contou com a colaboração do grupo Doulare, que reúne doulas de Araçatuba e região, e do Elo Mulheres, ligado a seu partido, para construir o projeto. “Estudos comprovam que o acompanhamento da parturiente pela doula traz diversos benefícios tanto maternos como fetais, dentre eles a diminuição da duração do trabalho de parto, do uso de medicamentos para alívio da dor, do número de cesáreas e da depressão pós parto”, justifica Beatriz.

HUMANIZAÇÃO
Andreia Stankiewicz, 39 anos, é doula há 7 anos e acompanhou seu primeiro parto em um hospital de Araçatuba justamente na data da publicação da lei. “Foi uma feliz coincidência assistir a este nascimento nesta data. Pude vivenciar essa abertura da maternidade e o comprometimento de toda a equipe em proporcionar uma assistência cada vez melhor na área da saúde materno-infantil”, diz. Ela é odontopediatra materno-infantil, especialista em ortopedia funcional e pós-graduada em odontologia neonatal e aleitamento materno, mas a experiência com o nascimento de seus dois filhos mudou sua vida. “O que me motivou a me tornar doula foi o sonho de trazer para Araçatuba a possibilidade de uma experiência de parto mais positiva, com muito respeito, amor e segurança, para todas as famílias que desejam vivenciar este processo como protagonistas de suas escolhas”, conta.
Ela explica que cada profissional desenvolve sua maneira de atuar com base na sua formação e experiência. O trabalho inicia no pré-natal com orientações à gestante e casais com o objetivo de preparar a família para o parto e os cuidados com o bebê. Durante o trabalho de parto a doula oferece suporte físico e emocional à parturiente e, sem uso de medicamentos, ajuda a mãe a lidar com as dores das contrações, facilitando o processo do nascimento. São diversas as técnicas utilizadas, como posturas, respiração, uso da bola de pilates, aromaterapia, imersão em água, rebozo (técnica em que são usados xales para ajudar no posicionamento e descida do bebê) e massagens. “É possível proporcionar um parto mais tranquilo, rápido e seguro, além de reduzir o estresse e medo da dor”, explica.
No pós-parto, a doula auxilia a família a se adaptar aos novos papéis, compreender melhor as necessidades e o choro do bebê e a ter sucesso na amamentação. “Utilizo também a laserterapia no pós-parto, que é um excelente recurso no tratamento e prevenção de fissuras mamárias, dor e cicatrização do períneo, inchaço, estímulo da imunidade, cansaço, depressão pós-parto, pós-operatório da cesárea e dores lombares”, acrescenta Andreia.

ANJO DA GUARDA’
Assim o casal Flávia Vendrame e Vinícius Okawa definiram o papel de Andreia em suas vidas nestes últimos meses. A primeira filha deles, Júlia, nasceu nesta terça-feira (6), e foi o primeiro parto que Andreia acompanhou em um hospital de Araçatuba. “Foi essencial. Sem o suporte da Andreia eu não teria 50% da confiança que tive. Ela me passou muita tranquilidade e como a gente se conheceu durante a gestação esse vínculo foi importante. Nesse momento a gente precisa de uma referência e como ela é mãe, passa essa confiança que marinheiro de primeira viagem não tem”, diz Flávia.
No cenário do parto, cada membro da equipe tem sua função específica, desde os médicos e enfermeiros, que se ocupam das questões técnicas relacionadas à saúde da mãe e do bebê, até os profissionais auxiliares. “A doula cuida do bem-estar físico e emocional da mãe que está dando à luz. O ambiente hospitalar, com a presença de grande número de pessoas desconhecidas em um momento tão íntimo da mulher, tende a fazer aumentar o medo, a dor e a ansiedade. Essas horas são de imensa importância emocional e afetiva, e a doula se encarregará de suprir essa demanda por emoção e afeto, que não cabe a nenhum outro profissional dentro do ambiente hospitalar”, explica Andreia.
O caso de Flávia e Vinícius reflete a realidade brasileira com relação à epidemia de cesáreas que toma conta do Brasil há décadas. Até os seis meses de gestação ela já havia sido dispensada por dois médicos de Araçatuba, que se recusaram a fazer seu pré-natal pelo fato da gestante querer o parto normal. “Eles só aceitariam se eu optasse pela cesárea, aí resolvi procurar uma doula. Trabalhamos todo momento para o parto normal, mas precisou fazer uma cesárea urgente e a Andreia nos acompanhou também durante a cirurgia, o que me deixou muito tranquila, pois eu estava com medo de não conseguir”, explica Flávia.
“Ela foi um anjo da guarda. Eu não queria o parto normal por que tinha medo de acontecer alguma coisa, mas minha opinião mudou nestes últimos meses e entendi que é mais saudável respeitar o tempo de a criança nascer”, diz Vinícius. O pai também foi orientado pela doula, que ensinou técnicas de massagens para aliviar dores da mãe, além de dicas sobre os cuidados com o bebê. A enfermeira obstetra Doralice de Souza Sumida, que atendeu o casal durante a permanência na maternidade, disse que a presença da doula mudou o ambiente. “Beneficia toda a equipe médica, por que a parturiente fica realmente mais tranquila, à vontade, e a doula cuida do emocional no momento do parto, o que a equipe médica não consegue fazer por conta dos procedimentos que está executando”, conta.

RESISTÊNCIA
“Não há justificativas plausíveis para não aceitar a presença da doula no parto”, afirma Andreia. De acordo com ela, a participação de doulas tem reduzido em 50% as cesarianas, 25% o tempo do trabalho de parto, 60% a analgesia peridural, 40% o uso de ocitocina e 40% o fórceps. “Ou seja, melhora a assistência, reduz os custos e tem alto impacto na percepção dos pacientes, favorecendo a saúde e qualidade de vida”. Com a garantia da lei, Andreia acredita que as doulas que atuam em Araçatuba não correrão mais o risco de não serem aceitas em maternidades. “Não é apenas em Araçatuba que isso acontece. Muitas vezes, o modo de organização das instituições de saúde constitui uma forma de violência, ao impor protocolos de atendimento padronizados a todas as mulheres, por vezes sem fundamento científico. Hoje, com mais conhecimento e informação, as pessoas têm buscado alternativas para garantir seus direitos e ter suas escolhas respeitadas”.
Para ela, a lei ajudará a dar mais visibilidade e informar à população sobre o papel e benefício da doula no parto. “Espero que cada vez mais famílias possam se beneficiar deste acompanhamento e possa vivenciar, como um evento único e sagrado, o momento do nascimento e um novo bebê”, finaliza.

FERNANDO VERGA – ARAÇATUBA

você pode gostar também