Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Parte do texto retirado do livro: A verdadeira história de Araçatuba, de Fabriciano Juncal, conta que naquele tempo vivia na pequena vila de Araçatuba uma mulher chamada Ana Rosa, conhecida por todos como Sinhana Carroça. Era figura conhecida, alvo de comentários indiscretos, pois mantinha encontros amorosos que todos sabiam, mas ninguém comentava abertamente. Morava sozinha, porém, mantinha bom relacionamento com os vizinhos e, até certo ponto, levava uma vida tranquila. Mas em 30 de maio de 1912, Sinhana Carroça quebrou de vez a rotina pacata do vilarejo de Araçatuba e embriagada e armada com um revólver, ora empunhado, ora preso à cintura e munida de uma cartucheira repleta de balas, saiu às ruas atirando a esmo em troncos e latas velhas. O barulho dos disparos espalhou o pânico entre os moradores.
Na noite anterior, ela e o seu amásio, conhecido como Sebastião, haviam bebido até altas horas. Ninguém soube ao certo o motivo da briga entre eles, mas ao amanhecer o povoado despertou com tiros e gritaria. Sebastião também atirava e a confusão tomou conta do lugar. Naquele dia Antônio Caputti, que ainda era não oficialmente autoridade e encontrava-se fora da vila, numa caçada. Mesmo distante, ouviu o tiroteio e logo um menino correu até ele pedindo que voltasse depressa para resolver o problema. Caputti retornou às pressas e, ao chegar, deparou-se com Ana Rosa e Sebastião alterados e armados. Tentou impor ordem e exigiu que lhes entregassem as armas.
Sinhana, cambaleando e com a voz embargada pela bebida, respondeu com insolência. Chamou Caputti de “metido” e “puxa-saco das autoridades de Penápolis”, afirmando que ele não passava de um falso policial, nomeado por conta própria. Caputti, humilhado e ciente de que realmente ainda não havia sido nomeado oficialmente, conteve a sua raiva e voltou para casa sob as gargalhadas de Sinhana e Sebastião. Não havia muito que pudesse fazer e além do mais a Vila de Araçatuba sequer possuía cadeia na época. Aos poucos as coisas foram se acalmando e o casal briguento foi embora.
Esse foi o estopim para Caputti. Determinado em resolver a situação viajou até Penápolis, cuja cidade Araçatuba estava subordinada, para obter a sua nomeação formal. Permaneceu lá por dois dias e, na sexta-feira seguinte, desembarcou na estação de Araçatuba transformado: barba feita, cabelo alisado e repartido ao meio, terno alinhado e um ar firme de autoridade. No bolso do paletó, guardava cuidadosamente, em papel de seda, o documento oficial de nomeação como Inspetor de Quarteirão de Araçatuba.
Trouxe também um ofício destinado ao chefe da estação ferroviária, solicitando a cessão de uma gaiola de transporte de gado, que seria utilizada como cadeia provisória, ou, quando necessário, para o transporte de presos até Penápolis. Contam os antigos moradores que depois desse episódio, Sinhana Carroça mudou completamente. Tornou-se uma mulher serena, discreta e incapaz até de levantar a voz. Passou, inclusive, a ser lembrada entre os pioneiros da vila, pelo trabalho e pelo amor ao pequeno povoado que viria a ser conhecida como a Capital da Noroeste Paulista.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, historiador e autor do livro: “Memórias de Araçatuba”.

