*Marcelo Teixeira
Em viagem recente a Brasília (DF), tive contato com o conceito de linguagem simples por meio de um livro adquirido na Câmara dos Deputados. Trata-se de um compromisso ético de quem escreve e não se trata de favor concedido ao leitor. Em uma sociedade marcada pela abundância de informação e pela carência de compreensão, tornar o texto claro é um gesto civilizatório. A história mostra que toda linguagem opaca constrói hierarquias: quem entende manda; quem não entende obedece.
Durante séculos, o poder se expressou por códigos inacessíveis. O latim eclesiástico afastava o povo da fé; o juridiquês moderno afasta o cidadão do Estado; o tecnicismo corporativo distancia o consumidor das decisões que moldam sua própria vida. A dificuldade do texto nunca foi apenas técnica — sempre foi política.
É nesse contexto que a linguagem simples ganha relevância. A autora Patrícia Roedel lembra que simplificar não é empobrecer o conteúdo, mas organizar o pensamento para servir ao leitor. Não se trata de reduzir ideias, mas de retirar obstáculos. Um texto simples respeita o tempo, a diversidade e o direito à compreensão. Ele não subestima a inteligência de quem lê; ao contrário, confia nela.
A NBR ISO 24495-1, ao definir linguagem simples como aquela que permite ao leitor encontrar, compreender e usar a informação, reforça essa dimensão ética. Encontrar é questão de estrutura; compreender é escolha lexical e lógica; usar é compromisso com a vida prática. Texto que não gera compreensão gera dependência, o que favorece quem detém o poder da interpretação.
A obscuridade protege o autor. A clareza o expõe. Por isso, escrever de forma simples exige mais esforço, não menos. Exige revisão, empatia e desapego do excesso. É mais fácil esconder-se atrás de palavras difíceis do que sustentar ideias claras. A linguagem simples responsabiliza quem escreve.
Há um equívoco comum em associar simplicidade à informalidade. Um texto pode ser simples e formal, técnico e claro, denso e acessível. A sofisticação não está na dificuldade, mas na coerência. Falar de temas complexos de forma compreensível é sinal de domínio, não de fragilidade intelectual.
Sob o olhar da história, a linguagem simples dialoga com o humanismo: o conhecimento como bem comum. Em sociedades desiguais, escrever com clareza é reconhecer que o leitor não é inferior, apenas diferente. É substituir a lógica do “quem pode entende” pela ética do “todos têm o direito de entender”.
No fim, a linguagem simples é uma escolha moral. Escolhe-se comunicar ou impressionar, construir pontes ou muros. E a história ensina: toda vez que a palavra se torna clara, o poder precisa reaprender a se explicar.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

