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DIEGO FERNANDES – ARAÇATUBA

As mudanças na economia por conta da pandemia do novo coronavírus provocaram uma alta na arroba do boi gordo, que vem trazendo maiores ganhos para os pecuaristas e causando aumento nos preços da carne vermelha para o consumidor final. E a previsão é de manutenção de alta, pelo menos, até o final do ano.

De acordo com dados da Scot Consultoria, nesta quinta-feira (3), a arroba do boi gordo estava batendo na casa dos R$ 240. Cada arroba representa 15 quilos da carcaça do bovino, que exclui o couro, o sangue, o sebo e os miúdos do animal na hora da pesagem antes da negociação.

O crescimento no preço foi de 20% em relação à media do preço pelo qual era comercializada cada arroba do boi, em media, de janeiro até o começo de junho deste ano, quando o preço estava em R$ 200.

Por conta disso, o preço para o consumidor final, que compra carne vermelha nos açougues e supermercados, sofreu um aumento significativo nos últimos meses. A reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL comparou preços de alguns cortes mais populares de carne em um supermercado da cidade e constatou aumentos que chegaram em até 37% em três meses.

Mais caro ao consumidor

A venda com um preço mais alto para os frigoríficos, que por sua vez, realizam a revenda para estabelecimentos como supermercados e açougues, fez com que o preço da carne disparasse em pouco tempo.

A reportagem do jornal O LIBERAL constatou os aumentos em rápida pesquisa em um supermercado da cidade. A comparação foi feita baseada em preços praticados no mês de junho, com o abate do boi gordo sendo feito a um preço 20% menor que o atual.

O quilo de fraldinha, por exemplo, que em junho podia ser comprado a R$ 17,90 o quilo, até ontem estava sendo vendido, no mesmo local, a R$ 23,98, alta de 37%.

Alta parecida teve o patinho, cujo quilo era vendido por R$ 21,98 em junho e chegou a R$ 29,88 nesta quinta-feira, um aumento de 36%.

Outros cortes da carne de boi como o miolo de acem, o coxão mole e a paleta bovina também tiveram alta considerável. O miolo do acem era vendido por R$ 18,58 e subiu a R$ 23,98, uma alta de 29%, idêntica a verificada na paleta bovina. Já o coxão mole subiu 33%, sendo que o preço atual do quilo é de R$ 29,98, enquanto em junho era comercializado a R$ 22,48.

Exportação

Em conversa com a reportagem, o pecuarista araçatubense Thiago Neves Rocco explicou que o aumento no preço da arroba do boi, grande causador do aumento de preços ao consumidor final, ocorre por uma série de fatores, um deles é a alta nas exportações.

“Desde o segundo semestre do ano passado, as exportações vem batendo números estratosféricos, basicamente recorde em cima de recorde. Isso puxado por China. A reabertura de mercados como União Europeia, China, Emirados Árabes, toda aquela região demanda nossa carne, isso já puxou o mercado de exportação. Depois disso entramos na pandemia e houve a desvalorização cambial”, explicou.

A alta nas exportações foi comprovada, inclusive, com dados da Abrafrigo, a Associação Brasileira dos Frigoríficos. Foram exportadas mais de 194 mil toneladas no último mês de julho, uma alta de 17% em relação ao mesmo mês de 2019. Com isso, os ganhos da indústria da carne brasileira aumentaram em 22%, chegando a mais de US$ 776 milhões.

O preço do dólar mais alto tem influenciado no aumento de exportações, já que o produto brasileiro ficou mais barato para os países estrangeiros com a desvalorização do real perante o dólar. Nesta quarta-feira, o dólar comercial estava cotado em R$ 5,41, um alta de quase R$ 1 no preço da moeda

Com este cenário, pecuaristas dão mais gás às exportações, causando menor oferta do boi gordo no mercado interno e consequente subida dos preços.

Menor oferta do boi

Outro fator destacado pelo pecuarista consultado pela reportagem foi a menor oferta do produto, ocasionada pelo abate de fêmeas e pelo período de seca, que praticamente acaba com a oferta do boi de pastagem, ficando todo o mercado dependendo apenas do boi de confinamento.

“Há uns 3 anos atrás a gente tinha preços que não nos remuneravam, então o pecuarista fica desanimado e abate a matriz, que é a fêmea, que vai gerar o bezerro. É um ciclo que eles chamam de ciclo pecuário. O preço está bom você retém fêmea, o preço está ruim, você abate fêmea. Então temos uma oferta de animais menor”, explicou o pecuarista.

Sobre o confinamento, Rocco afirma que nem todos os criadores possuem estrutura suficiente para o confinamento, que demanda um gasto maior com insumos para a engorda do animal.

“Uma vez que as pastagens elas terminam, os animais que estão no pasto passam a não mais ganhar peso e o pecuarista é obrigado a confinar e não são todos que têm a estrutura necessária para confinar, ou seja, a oferta de boi diminui ainda mais nesta época”, relatou.

Preço alto até dezembro

De acordo com o pecuarista Thiago Rocco, a pecuária é uma atividade de baixa oscilação e, com o cenário de pandemia e a maior demanda interna pelo boi gordo com a volta às atividades de bares e restaurantes, os preços da arroba do boi e, consequentemente, da carne vermelha, devem se manter altos até dezembro.

“A pecuária é uma atividade que não tem oscilações muito grandes de preço, é um mercado relativamente controlado, o que nós estamos vivenciando agora é meio diferente, que é essas altas de R$ 10, R$ 20, ou por exemplo, em janeiro que estávamos em R$ 195, hoje nós estamos chegando em R$ 240, não é comum o que está acontecendo”, explicou.

Apesar de comemorar a alta no preço da arroba, o que viabiliza seu negócio, o pecuarista faz o alerta para o consumidor final de que o preço da carne vermelha tende a permanecer mais caro pelo menos até o final do ano.

“Então é um cenário positivo de alta nos preços para nós pecuaristas, mas acho que fica o alerta aí que a carne vermelha vai bater em um precinhos salgados no Natal. Acho que até o Natal vamos ter que churrasquear porco, porque a carne vai estar cara”, avisou.

O pecuarista também avisou que a incerteza sobre a pandemia faz com que não dê pra se estipular uma data para a possível queda nos preços, mas segundo ele, o mercado tem dado demonstrações de que se manterá firme nos próximos meses, o que significa a manutenção do preço em alta.

Gado de corte


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