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Políticas públicas ainda não chegam aos autistas, diz idealizadora de movimento

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ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Com formação em duas áreas distintas, Química e Letras, Marisa Furia Silva se lançou a um novo desafio em sua vida no final dos anos 1970. Foi quando descobriu que Renato, seu terceiro filho, é portador de autismo, doença que atinge pelo menos 1% da população. A partir dali, muito mais do que lutar pelo tratamento e dar a atenção especial a ele, Marisa buscou conhecimentos fora do país e foi uma das percursoras da Associação Brasileira de Autismo).

Desde então, tornou-se referência nessa área, tendo importado métodos e ainda fundado entidades que contribuem com a difusão do conhecimento sobre a doença, além do amparo na educação e na saúde, como a AMA (Associação de Amigos do Autista de São Paulo. Hoje, aos 73 anos, ela é também membro do Conselho Nacional de Saúde.

Na última semana, esteve em Araçatuba para falar políticas públicas para autistas durante o Congresso Multidisciplinar sobre TEA (Transtorno do Espectro do Autismo), que reuniu cerca de 530 pessoas na Unip (Universidade Paulista). Na sexta-feira, dia de sua apresentação, ela concedeu entrevista ao jornal O LIBERAL REGIONAL. Leia-a abaixo.

 

O grande número de pessoas presentes nesse evento mostra o quanto, hoje, a população está indo atrás de esclarecimentos sobre esse tema e os profissionais, mais capacitação?

 

Hoje, quando a família começa a perceber sinais de autismo, já começa a pesquisar na internet. Mas, muitas vezes, é pega de surpresa porque uma criança não tem traço nenhum. Daí, vai vendo as dificuldades no dia a dia. E, assim, o resultado do diagnóstico é um peso porque não tem cura. Mas, há alternativas de se trabalhar com essas crianças, de modo que se engajem e melhorem muito durante a vida.

 

A senhora acha que os trabalhos nas áreas da educação e da saúde com esse público evoluíram em relação a décadas passadas?

 

Sim, sim. Há 30 anos, eu fui para a Europa visitar um centro de tratamento para autistas adultos, enquanto outra mãe que eu conhecia foi para os Estados Unidos. Daí, nós começamos a trazer de lá aprendizagem para trabalho no nosso país. Então, hoje se fala muito em ABA, a terapia de análise do comportamento aplicada que a gente trouxe para o Brasil há 20 anos. Mesmo assim, ainda está engatinhando. As associações utilizam-na e isso ajuda muito porque as crianças com autismo são muito concretas. Então, nossa fala com elas precisa ser muito diferenciada, concretamente.

 

No tratamento a esse público, quais desafios que a senhora enxerga?

 

Atender na área pública todo o ciclo de vida das pessoas com autismo. Porque, quem tem dinheiro, paga seus terapeutas, o que não é barato. Mas, a população em geral não tem dinheiro para isso. É muito caro. O governo tem que fazer esse atendimento correto e adequado.

 

Até porque o ciclo vai muito além da infância. A senhora que o diga!

 

Sim. Dos quatro filhos que eu tenho, o Renato, meu terceiro, tem 42 anos. E eu descobri o autismo nele em 1980, quando ele estava com 2 anos de idade. Foi na primeira consulta, que foi considerada um diagnóstico precoce para a época. E não havia o que se fazer. Foi daí que formamos a associação: eu e outros pais que tinham filhos com autismo. Foi em São Paulo, em 1983. Mas, hoje, eu ainda vejo as mesmas dificuldades. As mães vão vendo o diagnóstico e se perguntam: o que fazer? Todo o tratamento ocorre em nível particular.

 

Nesses 37 anos da associação, quais foram as principais conquistas?

 

Pense numa época em que não havia internet, facebook, google nem fax? Não havia literatura na USP sobre autismo. E como conseguíamos, então, chegar a esse público? Era por meio de telefone e pais que viajavam para o exterior e traziam livros, materiais. Tivemos um psiquiatra que veio dos Estados Unidos, doutor Rosenberg, e ajudou a constituir a associação. Começamos, então, a atender a essas crianças assim, com o que tinha, com base nos livros que vinham de fora. Daí, começamos a aplicar os métodos que aprendíamos junto com as pessoas que vinham de fora. Hoje, então, há uma gama de possibilidades de atendimentos para essas crianças, jovens e adultos. É uma educação e aprendizado ao longo da vida. Vejo isso com meu filho. Ele aprende no dia a dia.


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