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O ano era 2016. Morando em São Paulo e com 64 anos de idade, a pedagoga Ana Laura de Queiroz viu seu ritmo de trabalho diminuir e resolveu, então, cumprir uma jornada de fôlego: conhecer o Brasil inteiro. A missão durou exatamente um ano. Começou em 13 de agosto de 2016 e terminou em 13 de agosto de 2017. Encerrado um desafio, logo veio outro, que, aliás, foi a razão de ter feito aquela viagem: escrever um livro.

Foram dois anos relatando histórias de pessoas e curiosidades que viu em 117 cidades visitadas nos 26 estados brasileiros mais o Distrito Federal. O resultado dessa vivência está na obra “Venha sonhar comigo – uma história de aventura, independência e empoderamento feminino”, lançado no final do ano passado em São Paulo e que, em breve, terá sua sessão de autógrafos em Araçatuba, cidade onde a autora morou a maior parte de sua vida.

Nascida em Três Lagoas (MS), Ana Laura veio com a família para Araçatuba aos 7 anos. Na cidade paulista, construiu uma história relevante na educação. Na década de 1970, foi professora da rede pública estadual. Também chegou a ser proprietária do Colégio São Judas (hoje, De Angeles), o qual vendeu no começo dos anos 1980. Foi quando casou e migrou para São Paulo, onde morou até o ano em que iniciou a viagem mais longa de sua vida.

A aventura a que se lançou ocorreu num momento em que tinha tudo para desanimar. O momento era ruim na empresa para qual trabalhava, de treinamento e desenvolvimento, consequência da crise vivida pelo País. “Então, fiquei muito tempo em casa, escrevendo artigos”, diz a educadora, que é pós-graduada em psicopedagogia, líder coach com base ontológica e neurológica e, na literatura, coautora de quatro livros e autora de dois.

Para fazer o percurso do “Oiapoque ao Chuí”, vendeu carro e outros bens. “Só guardei os pertences pessoais, encaixotei tudo o que tinha e guardei na casa de uma amiga. Pus a mochila e fui embora para Brasil”, conta.

NORDESTE

Como se estivesse vivenciando a famosa música “Peguei um Ita no Norte”, do compositor baiano Dorival Caymmi, em que o poeta diz “adeus, Belém do Pará”, foi na capital paraense que o trajeto começou. Ana Laura já a conhecia, pois já fora para lá a trabalho. Mas, diferentemente da canção, que falava de uma embarcação, o “Ita”, o caminho de Ana Laura foi feito de avião, uma passagem que, segundo ela, foi comprada por inacreditáveis R$ 100. Aliás, foi pechinchando muitos valores de hoteis, alimentação e transporte que a viajante cumpriu o seu objetivo.

Do nordeste, Ana Laura ficou com impressões marcantes, principalmente das pessoas. Por lá, curtiu baladas com jovens, muitos dos quais curiosos em conhecer quem era aquela senhora com tamanha disposição. Dentre as tantas pessoas que conheceu, uma foi especial: dona Dica Frazão, de 97 anos. Conta Ana Laura que a colega quase centenária é reconhecida internacionalmente por tecidos produzidos com fibra das matas. “Ela era estilista e costureira. Tem fotos de toalhas e vestidos no Vaticano, na Alemanha…”, relata. “A cultura é de arrepiar.”

O mesmo a “viageira”, como chegou a ser chamada, pôde dizer da natureza. As paisagens que viu, diz ela, são de “encher os olhos”. Um dos exemplos nesse sentido foi em Alter do Chão, distrito administrativo de Santarém (PA). Encantada também ficou com as festas folclórica, cujas fantasias “em nada perdiam para o carnaval do Rio de Janeiro”. “Tudo isso foi emocionante de ser ver”, diz ela. Até mesmo em localidades onde a carência poderia justificar a tristeza, Ana Laura se impressionou com pessoas felizes. “Foi o que vi em regiões de seca e do agreste. Muitas pessoas não querem sair de suas casas, mesmo com propostas do governo”, afirma.

Como entrevistou muitas pessoas, foi acolhida por tantas outras e fez bastantes amizades, Ana Laura preferiu dar um toque humano em seu relato de viagem. Mais do que retratar suas impressões e experiências, destaca, na maior parte do livro, homens e mulheres que conheceu.

PERCEPÇÃO

Concluído todo esse trajeto, ela admite que sua visão de Brasil e da vida mudou. “Depois dessa viagem, concluí que é possível levar a vida com menos estresse. Essa foi uma lição que ficou. Além, é claro, de ter ficado ainda mais apaixonada pelo Brasil”, finaliza a escritora que, antes desses 365 dias inesquecíveis, não estava acostumada a viagens tão duradouras. Mãe de dois filhos (um de 36 e outro de 35 anos de idade), neste mês, ela fez o caminho da volta. Voltou a morar em Araçatuba, sua “cidade de alma”.


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