Home Cidades Araçatuba Em 2020, eleitores irão às urnas após ano marcado por forte crise política

Em 2020, eleitores irão às urnas após ano marcado por forte crise política

16 minutos de leitura
Compartilhe esta notícia!

ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Tensão. Esta é uma das palavras que pode definir o clima predominante na política de muitos municípios da região de Araçatuba em 2019. Cassações de prefeitos e vereadores. Cidades em que eleitores tiveram que voltar às urnas para eleger governantes para mandatos-tampões. Políticos que morreram. Reviravolta em impasses que se arrastavam há anos. E, no final do ano, a conta de que mais de cem mil eleitores tiveram seus títulos cancelados. Esses fatores seriam menos impactantes se não tivessem ocorrido a menos de um das eleições municipais.
Assim, por exemplo, definiu o então vereador José Fermino Grosso (DEM), de Birigui, ao perder o mandato em setembro. “Eles sabem que eu estou na frente”, declarou o parlamentar ao se referir aos seus adversários que, segundo ele, estavam temerosos com sua possível candidatura a prefeito neste ano.
Parlamentar mais votado em 2016, com 2.145 votos, o democrata foi cassado como consequência do trânsito em julgado de processo no qual era acusado de pesca ilegal – a condenação implicava perda da função pública. Em sua despedida, após quatro mandatos consecutivos, o polêmico vereador ironizou: “Foi por causa de meia dúzia de peixes, sendo que, neste ano, o Tietê perdeu mais de 45 mil toneladas de peixe e ninguém falou nada”.
Com a saída de Fermino, a maior casa legislativa da região, com 17 cadeiras, voltou a ter um representante do PDT. Fermino foi substituído pelo primeiro suplente de sua coligação, Clóvis Batista do Nascimento.
Segundo maior parlamento da região ao lado de Araçatuba, cada uma com 15 edis, a Câmara de Andradina cassou um vereador pela primeira vez em sua história. Em 16 de abril, durante sessão extraordinária no período da tarde e que contou até com reforço policial, o plenário decidiu, por 13 votos a um, cassar o então vereador Mário Henrique Cardoso (Cidadania). Mais conhecido como Mário Gay, contra ele pesavam denúncias de assédio sexual a um ex-assessor parlamentar e de agressão a mulher dentro da sede do Legislativo.
Para a defesa do vereador, Mário Gay – “negro, homossexual e criado sem pai e sem mãe” – foi vítima de um grupo político que queria tomar o seu cargo. “Por que o partido, então, não o expulsou? Por que perderia a cadeira na Câmara?”, questionou seu advogado, Gustavo Corazza, ao fazer a defesa do ex-vereador, na Câmara. Mário Gay foi substituído pelo suplente Wilson Bossolan (Cidadania).

NOVAS ELEIÇÕES
Mas as cassações tiveram consequências mais diretas na vida da população onde prefeitos perderam seus mandatos. Isso aconteceu em três municípios da região: Mirandópolis, General Salgado e Guaiçara.
Somente no ano passado, Mirandópolis teve três prefeitos. Até maio, a cidade era governada pela então prefeita Regina Mustafa (PV), eleita em 2016. Ocorre que, naquele mês, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) cassou o mandato do vice-prefeito José Antônio Rodrigues (SD). A instância máxima da Justiça Eleitoral acatou denúncia de que ele não poderia ter disputado o último pleito por ter contas rejeitadas quando governou a cidade.
A decisão atingiu também Regina. Assim, ambos deixaram os cargos que ocupavam. A cidade, então, passou a ser governada, interinamente, pelo presidente da Câmara à época, o vereador Carlos Ortega (MDB), até a realização de uma nova eleição, o que aconteceu em 1º de setembro. O emedebista ficou à frente do Executivo até 26 de outubro, quando o vencedor da eleição suplementar, Everton Sodário (PSL), assumiu o posto. Prefeito mais jovem da região, com 26 anos, por pouco tempo, ele ostentava a condição de primeiro governante no Estado eleito pelo partido do presidente Jair Bolsonaro. Porém, em meio à crise interna na legenda, Bolsonaro a deixou em novembro.
A mesma situação de Mirandópolis foi vivida em General Salgado. E com um agravante: pela segunda vez em seis anos, o município teve de escolher seu prefeito em eleição extra, realizada após a cassação do chefe do Executivo e do vice por crime eleitoral. Leandro Rogério de Oliveira (PL) e o vice, Paulo César de Almeida (PL) foram cassados em agosto por crime eleitoral. Eram acusados de entregar vantagem indevida (no caso, combustível) a eleitores em troca de voto durante a campanha eleitoral de 2016.
Então presidente da Câmara, o vereador Adriano Eugênio Barbosa (Patriotas) assumiu o Executivo até a realização de uma nova eleição. Ele saiu candidato, mas sofreu uma derrota acachapante. O candidato do PSDB, José Augusto de Carvalho Neto, o Guto, venceu com 78,35% dos votos válidos.
Por fim, Guaiçara. Diferentemente de General Salgado, lá, o pleito fora de época, ocorrido no final de outubro, garantiu a permanência Bruno Floriano de Oliveira (DEM) no comando da Prefeitura. Desde agosto, ele estava interinamente no cargo. Isso porque o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) cassou o então prefeito, Osvaldo Afonso Costa, o Vadinho (DEM), que não poderia ter disputado a eleição ocorrida há quatro anos por ter condenação devido à rejeição de contas no primeiro mandato de prefeito. Com a cassação, sua chapa naquele pleito também foi impugnada e, assim, a vice, Flávia Ramos Bittencourt Leão Cabral (PTB), também perdeu o mandato.
Mas, como não ficou inelegível, Flávia saiu novamente a vice na eleição suplementar, na chapa de Bruno Floriano. Assim, retomou o posto com a vitória do democrata.

TRAGÉDIA E
REVIRAVOLTA
Como nos anos anteriores, um dos maiores focos de tensão na região foi, mais uma vez, Valparaíso. Em meio a uma de suas maiores crises políticas, a cidade perdeu, em setembro, o vereador João Pedro Carvalho D’Ávila Júnior, vítima de descarga elétrica. Na ocasião, ele realizava trabalho de topografia em uma propriedade rural da cidade. Foi quando o instrumento de trabalho de João Pedro bateu nos fios de alta tensão. Eleito pelo PSC , João Pedro estava em seu segundo mandato. Voltava, na ocasião, a ocupar cadeira na Casa duas décadas depois de ter participado de sua primeira legislatura. Em 2017, foi presidente da Câmara.
Muita gente em Valparaíso só não esperava que o prefeito Roni Ferrareze (PV) fosse reconduzido ao cargo após sucessivas derrotas no Judiciário na tentativa de derrubar o veredicto da Câmara, que cassou seu mandato em fevereiro de 2018. Mas o inesperado aconteceu em 26 de novembro.
Na oportunidade, o TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) acatou, por unanimidade, recurso apresentado por sua defesa contra decisão de primeira instância que havia rejeitado ação anulatória dos atos praticados pelo Legislativo. No veredicto, os desembargadores determinaram a anulação de todos os atos da CP (Comissão Processante) criada no parlamento que levou à deposição de Roni.
Foram considerados nulos o recebimento da denúncia, a sessão de 23 de fevereiro do ano passado e o decreto legislativo, formalizando a extinção do mandato. Roni era acusado de facilitar a abertura de empresas por membros de seu grupo político para ganhar contratos com o município. Porém, as provas foram consideradas inconsistentes.
Após a decisão, nova surpresa. Uma semana após reassumir, Roni pediu afastamento por 40 dias. A alegação foi de que a troca de prefeito a menos de 30 dias do encerramento do ano poderia causar transtornos à administração municipal. Sendo assim, o vice-prefeito Lúcio Santo de Lima (MDB) governou a cidade até o final do ano passado.
A reviravolta, no entanto, não pôs ponto final à crise política na cidade. Uma semana antes de ter obtido vitória no TJ, Roni foi alvo de três ações por improbidade administrativa que, se foram julgadas procedentes, podem resultar na perda de seu mandato.

ELEITORADO
Se muitos políticos balançaram e caíram, o mesmo aconteceu com vários eleitores. Cerca de 113 mil eleitores de 45 municípios da região perderam seus títulos por não terem feito a biometria, uma exigência para votar a partir deste ano. O prazo teve início em fevereiro, encerrando-se em dezembro, mas grande parte do eleitorado deixou para a reta final o cadastramento das digitais, provocando grandes filas nos cartórios. Agora, esse público terá de esperar a abertura de novo prazo pela Justiça Eleitoral para regularizar sua situação.


Compartilhe esta notícia!