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ARNON GOMES – BIRIGUI

Aos 26 anos de idade, Jaqueline Pinheiro Balera fez de uma paixão iniciada na adolescência o seu ofício. No CEU (Centro de Artes e Esportes Unificados) do bairro Cidade Jardim, em Birigui, é a professora de dança de cerca de 200 crianças. A atividade pode não lhe deixar rica, mas a felicidade é visível. Na sexta-feira passada, último dia de aulas, muitas eram as meninas que lhe chamavam para tirar uma foto. Não faz tanto tempo assim, a moça começou a dividir essa prazerosa rotina com outra, que, na verdade, tornou-se um desafio a ser vencido.
Ela precisa juntar R$ 45 mil para cobrir empréstimo bancário obtido para pagar indenização de acidente de trânsito ocorrido em 2013 a uma família de Araçatuba. Para isso, apostou numa receita caseira: vender bolos. O trabalho, antes feito de forma esporádica por seus pais, o aposentado Valgemir Aparecido de Jesus Balera e a dona de casa Daísa Balera, passou a ser feito de modo intenso, pelo menos desde outubro, com o objetivo de honrar a dívida.
O acidente causou a morte de um pai de três filhos. De acordo com boletim de ocorrência registrado à época do fato, Jaqueline seguia em um corsa, pela rodovia Roberto Rollemberg (SP-461) de Birigui para Araçatuba, onde dava aulas. Ao perceber que o veículo começou a sair no sentido do acostamento, forçou o volante no sentido contrário, momento no qual perdeu a direção, atingindo o homem, que pilotava uma motocicleta.
Na ocasião, Jaqueline estava perto de completar 20 anos de idade e havia tirado sua CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Apesar de seu carro ter capotado, a jovem saiu ilesa.
No processo, movido em 2015, a família da vítima pedia aproximadamente R$ 600 mil, considerando indenização por danos morais e materiais, gastos com guincho, funeral, perda total da moto, entre outras. Dois anos depois, decisão da Justiça de Araçatuba estabeleceu o valor de R$ 100 mil só de indenização por dano moral.
Só que a quantia pleiteada e até mesmo a imposta pelo Judiciário, após se esgotarem todas as possibilidades de recurso da ação, estavam fora do alcance de Jaqueline e sua família. A família tem uma renda média de três salários mínimos, levando em conta o que ela ganha como professora e seu pai como aposentado da indústria do calçado.
Com a execução do processo, o casal se viu ameaçado de perder o seu maior bem: uma casa de meio terreno. Passado um tempo, um acordo entre as partes envolvidas no processo resultou, então, no montante de R$ 45 mil.
“O que mais queríamos era honrar essa dívida. A gente nunca teve condições de pagar qualquer valor, seja o que o advogado queria, o valor arbitrado pelo juiz… Eu ficava sem saber o que fazer. Mas tinha que dar um jeito de pagar para conseguir continuar vivendo, por mais que nenhum valor vá pagar ou trazer o pai deles de volta. Mas acho que eles estão no direito de pedir, sim, e dentro do que eu consiga. Então, o ‘meio termo’ foi R$ 45 mil”, diz Jaqueline, que contou ainda com apoio de familiares e amigos para pagar o montante. “A dor que eu causei a uma família, que perdeu um ente querido, é uma dor que ninguém quer. Se eu tivesse R$ 1 milhão, eu daria”, ressalta.
TRABALHO
Antes de pensar no bolo como fonte para pagar a dívida, Jaqueline chegou a pensar em vender pizzas, mas a margem de lucro, calculou ela, não iria trazer o retorno imediato e esperado. Daí, veio a ideia dos bolos.
A iguaria é vendida a R$ 12. Logo que começou, uma ampla clientela se formou no whatsapp e nas redes sociais. Preparador dos bolos vendidos pela filha, sr. Valgemir é daqueles aposentados que não consegue ficar parado. “Com alma de vendedor”, como conta a filha, no passado, aproveitava os horários de intervalo na fábrica de calçados, para comercializar “geladinhos”, que, dependendo do lugar, também são chamados de “chup chup” ou “sacolé”. Hoje, eles também fazem parte do cardápio da família Balera, que inclui também bolachinhas.
Formada em educação física, curso concluído no ano passado, Jaqueline pretende continuar com as aulas de danças, às quais ministra desde os 14 anos. Porém, do maior drama de sua vida, descobriu a vocação de empreender. Atualmente, ela faz cursos a distância sobre como empreender e elaborar planos de negócios. Espera, no futuro, crescer também com a venda de bolos. “Posso dizer que 2013 foi um divisor de águas, mas foi neste ano que tudo aconteceu. Por outro lado, tudo o que aconteceu serviu para nos unir e nos fortalecer”, finaliza, ao falar de todo o amparo que recebe de seus pais.

 


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