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Quando a surdez é descoberta cedo

ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Aos 7 anos de idade, Manuela Moreno Silva ama estudar, começou a desenvolver a leitura, ouve músicas e dança. Andar de bicicleta e nadar são suas atividades preferidas. Gostos e atividades comuns a qualquer criança que, para a mãe da pequena Manu, Cinthia Ramos Moreno Gonçalves, são uma conquista. Nada disso, hoje, seria possível se a vendedora autônoma não tivesse procurado, logo cedo, tratamento para a sua filha, que nasceu com surdez. Quase uma década após o advento da lei 12.303, que obrigou o Teste da Orelhinha na maternidade, a menina é um exemplo do quanto o diagnóstico precoce é importante e faz diferença para quem sofre de deficiência auditiva.
Cinthia descobriu falta de audição de Manuela quando a criança tinha apenas três dias de vida, durante o teste obrigatório, ainda no hospital. Quinzes dias depois, novo teste foi realizado, mas sem resposta nos exames. Logo, Manu foi encaminhada a um otorrinolaringologista. O diagnóstico, no entanto, estava impreciso. Só após ter passado pelo Hospital Ritinha Prates, com 45 dias de vida, Manu foi diagnosticada com surdez bilateral em grau profundo.
Mas havia uma esperança: a utilização de implante coclear. Apesar de não ouvir naturalmente, com essa tecnologia, teria uma audição artificial quase perfeita. “Para nós, foi um alívio, pois quando se escuta que um filho é surdo, logo se pensa em limitações, dependência, que não falará…”, conta Cinthia, que tem 28 anos de idade.
Ela, então, seguiu orientação da otorrinolaringologista e de uma fonoaudióloga e procurou o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o “Centrinho” da USP, em Bauru. A primeira consulta de Manu ocorreu em 2013. A menina estava com quatro meses. Todos os exames e testes foram refeitos em três dias. O diagnóstico confirmou o que fora indicado em Araçatuba. Porém, saiu de lá com o AASI (Aparelho de Amplificação Sonora Individual) para ver se obtia resultados. Isso, além de receber indicação para acompanhamento fonoaudiológico.
Passados três meses, mãe e filha voltaram ao hospital. Como o caso de Manu foi diagnosticado precocemente, o implante coclear seria mais indicado do que o AASI, utilizado e melhor adaptado em quem sofre de perdas leves. Assim, em julho de 2013, Manu passou pela primeira cirurgia e, no mês seguinte, ativou a parte externa. A partir dali, começou a passar por sessões de fonoterapia. Ao trabalhar bastante com a filha, com o tempo, Cinthia percebeu que sua filha começou a falar de tudo. “Hoje, ela é uma criança oralizada. Uma surda oralizada, que ouve e entende de tudo. Acompanha a sala de aula, fala ao telefone, etc”, conta a mãe.
Para Cinthia, o implante coclear foi um “divisor de águas”. Sem esse aparelho, enfatiza ela, a garota não poderia ouvir os sons da música que tanto ama dançar. “Graças ao IC, ela é uma surda que ouve”, diz a mãe, que destaca ainda o fato de Manu ter nascido em 26 de setembro, justamente a data em que se comemora o Dia do Surdo. Seu sétimo ano de vida, portanto, foi comemorado na semana passada. Ela ressalta que não há problemas quando o aparelho está na assistência técnica ou é retirado na hora do banho ou para dormir. A criança domina a leitura labial.

 

Diagnóstico de perda auditiva deve ser realizado até os 6 meses

Fonoaudióloga graduada pela USP de Ribeirão Preto, Daiana Camargo Zilotti, de Araçatuba, avalia que, hoje, o maior desafio no que diz respeito ao tratamento de surdez está relacionado ao diagnóstico precoce. De acordo com ela, mesmo após a criação da lei que obrigou o Teste da Orelhinha na maternidade, em 2010, o procedimento ainda não é totalmente uma realidade. “Para assegurarmos um bom desenvolvimento de fala e linguagem, o diagnóstico da perda auditiva e a intervenção devem ser realizados até os seis meses de vida”, explica a profissional, que é especialista em audiologia pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia.
Ela faz esse alerta porque, ao longo da primeira infância, os pais devem observar se a criança se assusta com barulhos, reconhece a voz dos pais ou familiares, presta atenção na fala e vocaliza, começa a verbalizar em torno dos 12 meses, compreende e responde comandos verbais mais simples, como, por exemplo, dar tchau e mandar beijo. “Atualmente, as cadernetas de vacinação estão com informações referentes ao desenvolvimento auditivo, linguagem e motor da criança, assim, ajudando os pais a ficarem sempre atentos aos primeiros sinais”, destaca.
NÚMERO
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), atualmente, cerca de 9,7 milhões de brasileiros possuem deficiência auditiva, o que representa 5,1% da população brasileira.
Daiana destaca que, com os avanços no tratamento, tem sido observado um movimento importante para assegurar aos deficientes auditivos as mesmas condições de educação, oportunidades de emprego e inserção social de uma pessoa sem nenhum tipo de deficiência. “Porém, mesmo com todos os avanços, nós precisamos estar cada vez mais preparados para receber, capacitar e respeitar as diversidades, até porque todas as pessoas com necessidades ‘especiais’ têm seus direitos assegurados na legislação. Faz-se necessário dar a oportunidade de poderem vivenciar suas próprias experiências”, finaliza a especialista.

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