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Uma escola na contramão do Estado

ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Logo no corredor principal, o aluno já fica ciente de que estuda em uma escola de tradição. A placa, com a imagem de seu patrono, Vitor Antonio Trindade, informa que toda esta história começou há 66 anos. A longevidade manteve esta tradicional de unidade ensino público, em Araçatuba, conectada. Além das salas de aula normais, há laboratório de informática, salas de TVe DVD e dois retroprojetores. Entretanto, é em um valor, cuja dificuldade de manter está numericamente comprovada em todo o Estado, que o local se destaca: a leitura.
Única instituição de ensino de Araçatuba vistoriada por equipe do TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) em pesquisa cujo objetivo foi avaliar o atual quadro da educação em São Paulo, a EE (Escola Estadual) Professor Vitor Antonio Trindade caminha na contramão de estatística nada animadora trazida no levantamento, segundo a qual um quarto dos estabelecimentos de ensino paulistas não possuem sala de leitura ou biblioteca.
Ao todo, foram fiscalizadas 133 escolas. Delas, 34 não têm espaço dedicado à prática de ler. O número traz um aviso. No próximo ano, vence prazo estabelecido na lei federal 12.244/10 para que todas as escolas do país tenham biblioteca com acervo mínimo de um livro para cada aluno matriculado e um bibliotecário por unidade educacional.
Conforme o relatório do TCE, em algumas escolas, não há efetiva utilização do espaço por causa da desorganização do ambiente ou, às vezes, por falta de projeto pedagógico. No caso da Vitor Antonio Trindade, popularmente chamada de “Industrial” por causa do cursos técnicos ali existentes no passado, isso não é problema.
Os números do tribunal revelam que o acervo da escola localizada no bairro Santana dispõe de 6.796 obras literárias, sendo três enciclopédias, 113 dicionários, 938 livros de literatura infantil, 1.488 infantojuvenis, 1.637 de literatura brasileira, 787 de literatura estrangeira e 1.830 paradidáticos. Todo esse vasto conjunto com doações de professores, estudantes e da comunidade, além da participação da escola em programas para a aquisição de livros. Várias verbas extras recebidas ao longo do tempo foram utilizadas na compra de títulos.
Os projetos ligados à leitura são variados e envolvem seus cerca de 800 alunos, entre estudantes dos ensinos fundamental 2 (6º ao 9º ano) e médio (1º ao 3º). A diretora da escola, Climene Beraldo Antonela, vê a valorização da sala de leitura como algo muito positivo para a formação dos alunos. “Hoje, disputando com tantas coisas que eles têm disponíveis com a tecnologia, incentivar a leitura não é fácil. Então, temos que utilizar outras técnicas, com atividades diversificadas”, afirma. Ela ressalta que, na escola, o projeto da sala de leitura existe desde 2010, bem depois da biblioteca própria, batizada com o nome de ninguém menos que Monteiro Lobato.
Na sala de leitura, ocorrem aulas, os alunos podem se dirigir simplesmente para ler um livro e ocorrem ações pedagógicas diferenciadas. Um deles é o Projeto Mediação e Linguagem, no qual os estudantes, primeiro, leem um livro e, depois, gravam uma radionovela ou filme de curta duração que fica disponível no Youtube. Atualmente, estudantes do fundamental estão se preparando para um concurso de redação em parceria com o Unisalesiano (Centro Universitário Católico Salesiano). “E temos conseguido bons resultados, principalmente observando as habilidades de leitura e escrita.”

 

Em ciências, Industrial integra seleto grupo

Se, no campo da leitura, o desafio é grande, em Ciências, a fiscalização do TCE concluiu que o quadro é ainda mais estarrecedor.
O levantamento destaca também que laboratório de Ciências é o ambiente menos presente nas escolas estaduais. Em 82% das unidades de ensino paulistas, em relação aos anos iniciais, não há um espaço estabelecido para o estudo da matéria.
A Industrial, por sua vez, também caminha na contramão de São Paulo nesse aspecto, compondo o enxuto universo de 18% das unidades educacionais que dispõem desse ambiente para estudo.
A fiscalização verificou que, em muitas escolas, embora exista o local para a prática da matéria de Ciências, o local é, muitas vezes, utilizado para outras atividades como sala de aula, sala de professores, sala de artes ou desativado por falta de manutenção ou equipamentos mínimos essenciais.

 

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