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Facção criminosa planejou atacar sede da Força Tática com granadas

VITOR MORETTI – ARAÇATUBA

A Primeira Vara da Comarca de Penápolis, região de Araçatuba, condenou a mais de 228 anos de prisão os 18 réus que integram uma facção criminosa que age dentro e fora dos presídios. Os acusados foram presos em março de 2018 durante uma operação conjunta entre o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e a Polícia Militar em Araçatuba, Birigui e Penápolis. No decorrer das investigações, a inteligência de tais órgãos identificou lideranças regionais do grupo agindo de forma coordenada nos municípios. Entre os presos estão aqueles que exerciam funções de alerta, cobradores de dívidas, os que faziam as rifas, as pontes de contatos entre os integrantes e os responsáveis pelo “tribunal do crime”. Até ataques contra policiais militares foram planejados, com a utilização de granadas e fuzis. É o que mostra a denúncia apresentada à Justiça, após nove meses de investigações.

A sentença foi proferida pelo juiz de direito Marcelo Yukio Misaka. Durante as investigações, um ofício reservado do Comando da Polícia Militar indicou a existência de um agrupamento de pessoas, de forma estruturada e com divisão de tarefas, que seriam responsáveis pela prática de crimes patrimoniais e de tráfico de drogas na região com vistas a autofinanciá-los, o que, segundo o juiz, “se amolda perfeitamente ao conceito legal de organização criminosa”.

As provas coletadas revelaram que a facção criminosa tem estrutura diversificada, com núcleos atuantes em determinados assuntos, como arrecadação de dinheiro, tráfico de drogas, setor de disciplina (máxima autoridade da facção em determinada localidade) e divididos por regiões.

LIDERANÇAS REGIONAIS

Nas análises realizadas pelo monitoramento telefônico do condenado Vander Alfenes dos Santos, vulgos “Boy”, “Samurai”, “Thiago” ou “Samuel”, demostraram para a Justiça que ele reside em Penápolis e integra a organização criminosa desempenhando a função de um dos líderes regionais da área 18.

O exercício de liderança de Vander também ficou comprovado em outro diálogo interceptado com autorização da Justiça. Nele, o homem autoriza outro integrante a agredir terceira pessoa como castigo por violar regras de conduta da organização, conforme diálogo descrito abaixo.

“VANDER/THIAGO: você vai ser cobrado em cima dessa parada que você fez aí parceiro pra você não errar mais, da próxima vez que errar aí nós vamos mandar você lá para a UTI, você vai levar maior boi que vai sair inteiro dessa vez, está entendendo?”

Em outro trecho da gravação, o sentenciado ordena para outra pessoa.

“VANDER/THIAGO: dá uns quatro socos aí no peito dele e aí irmão solta ele na banguela, só quatro socos, entendeu?”

Além de Vander, a ré Andressa Renata Carla de Oliveira Gottardi, moradora em Araçatuba, também é apontada com uma posição de destaque no âmbito da organização, com funções de relevância. Na decisão, o juiz afirmou que os diálogos captados demonstraram que Vander estava associado a outras pessoas com o fim de praticar o tráfico ilícito de entorpecentes.

Em outros trechos, Vander e Andressa afirmaram que a situação estava bem difícil, porque o réu teria perdido parte da droga em Paraguaçu Paulista e a Polícia Militar de Penápolis estava dificultando o tráfico de drogas na cidade.

Ao fim, o réu foi condenado pelos crimes de organização criminosa e associação para o tráfico. A soma resultou em nove anos, três meses e dez dias de reclusão em regime fechado.

Já o réu Alex Camilo Tuzzi também atuava em Penápolis e exercia a função de autoridade, já que em um diálogo, Vander lhe cientifica a respeito de uma situação na qual seria aplicada uma consequência a um infrator das normas da organização. Ele foi condenado a 17 anos, quatro meses e 18 dias de reclusão pelos crimes de organização criminosa, tráfico de drogas e associação para o tráfico.

Em Araçatuba, Wilson Evangelista Rodrigues era considerado uma das lideranças no município. A ele, segundo a denúncia, também era incumbida a aprovação de novos integrantes na organização criminosa por meio dos chamados “batismos”. Além disso, ele era responsável pela venda ilícita de drogas, mas nunca foi preso pelo crime, já que fazia o repasse dos entorpecentes a terceiros. Ao final, a pena aplicada ao criminoso foi de 26 anos, seis meses e 26 dias de reclusão.

Ainda na cidade, Andressa exercia, pelo menos, quatro funções diferentes dentro da facção criminosa. No dia da operação, a Polícia Militar apreendeu diversos materiais, comprovando sua participação na organização. O que chamou mais a atenção foi uma conversa que ela teve por telefone, onde revela admiração pela facção, inclusive sobrepondo-a a eventuais relações amorosas.

“Há elementos nos autos para se afirmar que ela ocupe posição de hierarquia dentro da facção, vez que há diálogos indicando que ela teria responsabilidade de destituir de algumas funções os membros da facção que não atuassem de acordo com eles”, justifica o magistrado na sentença.

A condenação foi de 17 anos e cinco dias de reclusão em regime fechado. À época, a reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL acompanhou as buscas na casa de Andressa, localizada no bairro Primavera, zona norte de Araçatuba.
Dentro da residência foram encontradas diversas anotações do tráfico de drogas e da ligação do crime com a quadrilha. Além disso, dezenas de cartas vindas dos presídios com ordens e orientações foram apreendidas. Para o Ministério Público, a mulher seria uma das principais chefes da comunicação entre a facção e os outros membros. Até mesmo cartas da Baixada Santista foram encontradas na residência. Outros bairros também foram alvos da operação, como Mão Divina, Ezequiel Barbosa e Santana.
Ao longo das investigações foram apreendidos 203,532 quilos de maconha, 1,127 quilo de cocaína, 90 gramas de pasta base de cocaína, além de 370 gramas de crack. Todas as penas, somadas, chegam a 228 anos, oito meses e 17 dias de prisão.

 

MEMBROS PLANEJARAM ATACAR POLICIAIS COM FUZIS E GRANADAS

No curso do processo também ficou comprovada a intenção de membros da organização criminosa em realizar represálias contra policiais, inclusive com a utilização de coletes balísticos, armas de uso restrito e até granadas. É o que evidenciou um diálogo de Luan Arruda de Souza, vulgo “Nicolas”, o qual a reportagem descreve um trecho abaixo.

“LUAN: então, está levando uma com esses caras aí, já vou matar uns dois polícia, já falei estou na maior neurose.

HNI (Homem não identificado): aí, nós estamos numa bala ali pra nós arrumar uns colete lá, e arrumar uns fuzil lá, com o ABACATE lá.

LUAN: então, eu vou, eu vou, vou interagir com ele lá, nós vamos fazer descer essas paradas aí, nós vamos fazer um atentado aqui cuzão (sic), não tá da hora não”.

Ainda durante as investigações, a Polícia Militar por pouco não o prendeu em um flagrante de tráfico de drogas. Um comparsa do réu acabou detido com 38 porções de maconha, uma balança de precisão e outros objetos relacionados ao tráfico de drogas. Na sentença do juiz Marcelo Yukio Misaka, o acusado foi condenado a 14 anos e 22 dias de reclusão.

Em Birigui, Naim Duarte Inácio, vulgo “Imperador”, exercia a função de “disciplina geral”. A comprovação vem de um diálogo dele realizado no dia 14 de julho de 2017. O réu liga para uma penitenciária e pede para falar com um homem chamado “Max”.

O autor revela, ainda, a intenção de praticar atentados contra policiais, inclusive admite isso seria em represália à atuação dos militares contra um integrante da facção. Em uma conversa, ele afirma ter encomendado duas granadas para atentar contra a vida dos agentes, conforme a descrição.

“NAIM: não tem arma, eu vou falar pra você. Eu pedi duas granadas lá para fazer um atentado ali e os caras não me mandou até agora […] Capotar viatura mesmo irmão, quero os furas deles, quero só os meiocas o bagulho tá difícil. Aí mano, vou falar para você na rua aqui se eu tivesse duas granadas hoje, não vou mentir pra você não, a primeira que ia jogar ia ser lá dentro daquele Batalhão lá onde fica a Força Tática”.

Os diálogos também revelaram que “Imperador” seria responsável por fazer julgamentos no chamado “tribunal do crime”. Ele e outro investigado combinam de pegar um rapaz acusado por estupro e levá-lo provavelmente para um sítio. Naim foi julgado e pegou 19 anos, oito meses e sete dias de reclusão.

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