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Polícia Civil de Araçatuba prende suspeito de ter incendiado concessionária

VITOR MORETTI – ARAÇATUBA

“Ele é uma pessoa fria, extremamente fria, inteligente e meticulosa. Em todos os locais que foi, seja para poder comprar gasolina, incendiar a roupa ou imprimir a carta, teve o cuidado de desligar o GPS do celular”. As palavras são do delegado da DIG (Delegacia de Investigações Gerais), Antônio Paulo Natal, responsável pelo inquérito que investigou o incêndio à concessionária da Hyundai Caoa, ocorrido no último dia 13 de julho, em Araçatuba. As investigações concluíram que o ex-chefe de oficina do estabelecimento, Luiz Fernando Sanches Casati, de 32 anos de idade, ateou fogo no prédio. Ele foi preso preventivamente no início da tarde de quinta-feira (1) na residência onde mora, no bairro Nova Iorque.

Foram dezenove dias de investigações, que tiveram início já logo depois do incêndio. O depoimento de testemunhas, as imagens de câmeras de segurança e o cartão de crédito do indiciado foram essenciais para que a polícia conseguisse montar todo o quebra-cabeça. O primeiro indício localizado foi uma carta deixada dentro da concessionária. Algumas folhas queimaram, mas oito delas permaneceram intactas. O conteúdo trazia ameaças ao gerente e a outro funcionário e dava o entender de que tudo aquilo havia acontecido depois que um cliente teria sido mal atendido na empresa. Apesar disso, essa primeira versão não convenceu os investigadores, conforme explicou o delegado durante entrevista coletiva.

“Desde o princípio, a gente achou que isso era muito óbvio, porque ali na carta ficou evidenciado o caráter pessoal do crime. No mesmo dia, localizamos um dos funcionários mencionados no bilhete. Ele foi interrogado e falou que não teve problema algum com cliente nos últimos dias. Já na segunda-feira, a gente ouviu o segundo funcionário e ele também negou que tivesse tido algum problema com cliente, o que evidenciou que o motivo não era aquele”.

A partir de então, as investigações rumaram para outra direção: a de que um funcionário ou ex-funcionário da concessionária poderia ter cometido o crime. As imagens de câmeras de segurança da Hyundai foram recuperadas, mesmo depois de todo o incêndio ter destruído o prédio e foram essenciais para ajudar a polícia.

“Felizmente, as imagens da concessionária não foram danificadas pelo incêndio. De posse delas, conseguimos constatar coisas interessantes. Primeiro, a pessoa chega até o local se vestindo de mendigo, com cobertor, para não ser identificada. Segundo, o acesso ao interior da agência se deu sem arrombamento, ou seja, essa pessoa removeu uma guarnição de alumínio e ali forçou para frente e para cima e fez a abrir. Esse problema foi sanado na empresa dois meses antes por um pessoal de São Paulo. Diante disso, nós tínhamos certeza de que era um funcionário ou um ex-funcionário”, comentou.

SEQUÊNCIA DE IMAGENS

As imagens obtidas pela reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL são impressionantes e mostram que o autor agiu naturalmente e com precisão. A câmera externa flagra o momento que o incendiário chega ao local, por volta das cinco horas da manhã. Ele está encapuzado e carrega uma mochila nas costas.

O criminoso para por alguns segundos diante da porta, realiza a manobra específica e consegue abri-la sem dificuldades. Na sequência, ele entra no salão onde estão expostos alguns veículos da mesma marca, mas de diferentes modelos. O homem caminha até a mesa de atendimento e espalha algumas folhas. Ele repete o movimento mais duas vezes por outros lugares do prédio.

Com todos os bilhetes espalhados, o incendiário retira o galão com gasolina da mochila e começa a espalhar o combustível por todos os cantos. Em determinado momento, ele abre as portas dos automóveis e também joga o produto ali. O que chamou a atenção da polícia foi a facilidade com que o homem abriu os capôs dos diferentes modelos e jogou combustível até no motor. Mais tarde, os investigadores descobriram que naquele local a combustão é maior, fato que evidenciou o conhecimento do criminoso em mecânica.

“A gente percebeu que ele colocou muita gasolina no compartimento do motor. Depois, em conversas com os outros mecânicos, eles explicaram que ali existe muita concentração de óleo, seja do motor, do câmbio, portanto a combustão seria maior“, disse o delegado.

Após jogar o combustível por todo o showroom, o criminoso pega um cabo de madeira com um pano na extremidade e coloca fogo em várias partes da concessionária. As chamas se espalham rapidamente e o rapaz foge correndo pela rua lateral.

As câmeras de segurança de um prédio localizado atrás da concessionária flagraram tanto o momento quando o homem foge correndo quanto na hora que passa vestido com um cobertor para não chamar a atenção de quem passa pela via pública.

“Nós temos certeza de que era ele, porque tinha um jeito peculiar, já que fez balé. É alto, magro e pelo estilo do incendiário tínhamos convicção de que realmente fosse ele, já que as características batiam”, complementou Natal.

Além disso, a polícia descobriu que recentemente Casati foi advertido na concessionária depois de ter cometido faltas que vão contra as normas do estabelecimento. O teor e o motivo da advertência não foram divulgados pela DIG. Depois disso, os funcionários perceberam a mudança de comportamento do rapaz, recaindo todas as suspeitas sobre o até então funcionário.

PRIMEIRA PRISÃO

Dois dias depois do incêndio, os policiais já tinham informações e desconfiavam de Casati, por isso a Justiça autorizou o cumprimento de um mandado de busca na residência onde ele mora, localizada no bairro Nova Iorque.

Em um primeiro momento, os investigadores não encontraram nenhum indício de que ele pudesse ser o autor do incêndio. Apesar disso, os investigadores localizaram diversas munições de calibres de uso permitido e restrito e peças furtadas da Hyundai.

Em depoimento, o investigado negou participação no incêndio. Já sobre as munições disse que eram da época que fazia Tiro de Guerra. Sobre as peças, o indiciado informou que as mesmas eram para descarte. Mesmo assim, ele foi preso em flagrante por posse ilegal de munição e furto.

“Ele negou, mas confirmou que realmente os superiores chamaram a atenção por normais infringidas na empresa. Ele disse que esteve em uma festa naquela madrugada em um condomínio na cidade, mas ele saiu por volta de uma hora da manhã. Depois, o suspeito disse que só saiu de casa por volta das seis horas da manhã, ao ficar sabendo do incêndio”, afirmou o responsável pelas investigações.

Pelo cartão de crédito apreendido durante as buscas, a polícia descobriu a compra do combustível em um posto e teve ainda mais convicção da autoria da ação criminosa.

OUTRAS IMAGENS

Mas a polícia conseguiu encontrar mais provas que contrariaram o depoimento do investigado. Câmeras de segurança da rua, perto da casa dele, mostram uma movimentação suspeita desde a noite anterior ao incêndio. De acordo com Natal, Casati saiu de casa para abastecer, primeiro, a caminhonete. Algumas horas depois, ele foi em outro posto de combustíveis com um galão e abasteceu com cinco litros de gasolina.

“Constatamos que na noite anterior, fato omitido da gente, ele foi até um posto de combustíveis e comprou aproximadamente cinco litros de gasolina e um isqueiro. Na sequência, ele voltou para a casa e entrou com esses objetos”.

Já no dia do crime, as câmeras flagraram um indivíduo saindo do imóvel com um cobertor indo em direção à concessionária. “Nós percebemos que por volta das 3h50 as luzes externas da residência estavam apagadas, o que é incomum no local. Ouvimos os outros dois moradores da república e eles disseram que a determinação era que as luzes ficassem acesas, por questão de segurança. Exatamente nesse dia, ele apagou tudo e 20 minutos depois sai uma pessoa vestindo de mendigo dessa casa, a pé, e vai no sentido da Hyundai”, relembrou Natal.

Cerca de 40 minutos depois, o mesmo indivíduo é flagrado correndo de volta ao imóvel. Os policiais perceberam pelas imagens que quando um carro passa para entrar na garagem de uma empresa de ônibus, o suspeito tenta se esconder para não ser percebido.

“Então, concluímos que ele (Casati) era o autor. A forma como o suspeito entrou na empresa, o conhecimento de mecânica e o detalhe da porta deram o entender de que nenhum outro morador da casa poderia ter culpa, pois não tinham tanto conhecimento assim”.

FORMA DE ESCREVER

O vocabulário utilizado pelo autor da carta ameaçadora também chamou a atenção dos investigadores desde o dia que as folhas foram descobertas em meio aos entulhos e os poucos objetos que sobraram da concessionária. O e-mail profissional de Casati foi analisado, já que ele era o responsável por fazer a digitação dos veículos da oficina. Nos escritos, a polícia encontrou diversas palavras usadas comumente por ele, como mequetrefe e vide.

“São palavras pouco usadas no dia a dia. Mas, nas redes sociais e no e-mail profissional dele, constatamos que ele já havia utilizado esses dizeres”.

O local onde o mecânico imprimiu as cartas ameaçadoras foi em uma lan house em Birigui, segundo a polícia. Depois do cumprimento do primeiro mandado de busca na casa dele, o celular foi apreendido. O GPS do aparelho informou, por duas vezes, que o suspeito esteve no estabelecimento comercial.

Com essas informações, a DIG foi até o endereço, conversou com o proprietário. Ele confirmou que o rapaz esteve no local por pelo menos três vezes, ficava cerca de dez minutos, redigia algo e ia embora.

SUSPEITO TERIA CONFESSADO CRIME A AMIGO

Outra testemunha-chave, considerada amiga de Casati, foi essencial para o inquérito. Ela prestou depoimento e afirmou que o rapaz teria confessado toda a ação a ela. “Ele confessou que colocou fogo na concessionária, imprimiu as cartas em Birigui e que, no sábado, logo após o incêndio, ele foi até um lugar conhecido como ‘vagão’ (local utilizado por vagões de trens) e lá queimou as roupas usadas durante o crime”, revelou o delegado.

Ontem, durante a prisão, Casati negou, de novo, a autoria do incêndio, segundo apurou a reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL. Depois de passar pelo exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal), o mecânico foi transferido para o Centro de Detenção Provisória de Nova Independência, onde deverá aguardar decisão da Justiça.

O investigado vai responder por incêndio, cujas penas podem variar de quatro a oito anos de prisão, pelo fato de existir uma oficina no local, além de ameaça, ou seja, penas de um a seis meses de reclusão.

Nesta semana, o Ministério Público já havia oferecido denúncia à Justiça a respeito do caso após o encerramento do inquérito e o juiz de direito Wellington José Prates deu prosseguimento e tornou o mecânico réu na ação.

O advogado de defesa disse por telefone que, por enquanto, não vai se manifestar a respeito da prisão de seu cliente, já que ainda analisa as informações compostas no inquérito.

Já a Caoa informou por nota que recebeu a informação sobre a prisão do acusado pela imprensa e não quis comentar o assunto. “O acusado já não mais fazia parte do quadro de funcionários da empresa, não se enquadrando, portanto, nenhum pronunciamento de nossa parte. Não nos cabe nenhum tipo de julgamento, sendo certo que a empresa aguardará a decisão da Justiça”, concluiu.prisão indiciado

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