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Combatente da Revolução Constitucionalista de 1932 foi o primeiro despachante de Araçatuba

ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Há muitos anos, para uma família de Araçatuba, 9 de Julho é, de fato, um dia especial. É quando os filhos reverenciam a memória do pai, Manoel Guimarães Dias, falecido há 42 anos. Ele foi um dos participantes da Revolução Constitucionalista de 1932, razão do feriado de hoje.
Seis anos depois do movimento que buscava garantir maior autonomia para o Estado, esse paulista de São Pedro do Turvo se mudou para Araçatuba, onde se tornou o primeiro despachante policial.
Os registros dessa trajetória estão em diferentes documentos oficiais, os quais a OAB (Ordem dos Advogados Brasil) local pretende usar para justificar uma inclusão no projeto Faces Históricas – trabalho que homenageia, com quadros expostos na Biblioteca Municipal, personalidades históricas da cidade.
Conforme o produtor rural Felício Guimarães Dias, um dos quatro filhos do saudoso Manoel, foi a atividade profissional que trouxe seu pai para Araçatuba. Ele veio para a cidade no mesmo ano da Revolução, para trabalhar como gerente da antiga Casa Bandeirantes, um comércio de tecidos que funcionava na Rua Oswaldo Cruz, no Centro. O estabelecimento comercial, no entanto, encerrou suas atividades de forma precoce.
Assim, em 3 de março de 1939, abriu o Escritório Brasil, de despachos policiais. Inicialmente, funcionou na Praça Nove de Julho, onde hoje fica a Câmara, e, em 1942, foi transferido para a Rua Olavo Bilac. Consta que teria sindo, inclusive, o primeiro despachante policial do Noroeste Paulista. Mesmo após sua morte em 1976, os filhos do fundador mantiveram o serviço aberto na região central da cidade até 2000.
INDEPENDÊNCIA
Nos dias atuais, Feliciano guarda, na memória, muitas histórias contadas por seu pai sobre o movimento paulista de oposição ao governo Getúlio Vargas.
“Dizia que ficou mais de 30 dias entrincheirado em meio a um clima de alta tensão. E ele carregou para sempre esse ideal de que São Paulo devia se tornar independente”, relembra. “O Estado sempre sustentou os outros estados brasileiros”, afirma Felício, que guarda uma certidão emitida pela Procuradoria Geral do Estado, reconhecendo a participação de seu pai no levante dos militares paulistas.
Além dele, Manoel teve outros três filhos: Aparecido Guimarães Dias, Alan Guimarães Dias e Ligia Guimarães Dias. Era casado com Preciosa Barreto Dias, que morreu aos 94 anos de idade em 2010.
HOMENAGENS
Dois anos após sua morte, o nome de Manoel recebeu indicação, na Câmara Municipal, para virar nome de rua. Conforme o texto, que teve sua aprovação em 25 de setembro de 1978, Manoel em 11 de março de 1907, portanto um ano antes da fundação de Araçatuba.
“Sua participação na comunidade foi sempre positiva, participando dos esportes, recreação, vida econômica e nunca negou seu apoio às obras assistenciais”, escreveu o então vereador José Ferreira Baptista Júnior, o Ferreirinha, hoje com 103 anos idade, na propositura em homenagem a Manoel, com data de 18 de setembro de 1978. Na matéria, o antigo político araçatubense fazia menções a outros papeis que garantem uma posição de destaque ao ex-combatente na cidade que adotou. Ferreirinha destaca, no texto, a participação de Manoel como membro da Acia (Associação Comercial e Industrial de Araçatuba) e sócio-fundador do Esporte Clube Coríntians.
Como resultado dessa indicação, a rua em homenagem a Manoel fica no bairro Jardim Sereno.

Evento da categoria reconheceu pioneirismo de ex-combatente

Vinte e cinco de agosto de 2012. Celebrava-se em uma churrascaria da cidade o Dia do Despachante. Para Felício, foi a homenagem mais bonita feita ao seu pai. Na oportunidade, o despachante Ademar Casarin proferiu discurso evocativo da memória do ex-combatente de 32 para um público de 120 convidados.
No discurso, cuja íntegra a reportagem de O LIBERAL REGIONAL obteve acesso, Casarin reconhecia o pioneirismo de Manoel na atividade em Araçatuba. “Nesses 37 anos que se dedicou ao ramo de despachante, sempre foi uma pessoa trabalhadora, honesta, correta e cumpridora de seus deveres perante seus clientes. Para aqueles que o conheceram, afirmam que Manoel Guimarães Dias foi um homem bom, um grande professor e um profissional exemplar”, declarava Casarin. “A classe de profissionais despachantes sempre foi vista com maus olhos por determinados seguimentos da nossa sociedade, mas não reconhecem o grande valor que esses profissionais exercem dentro da nossa comunidade e da nossa sociedade, pois sempre estão dispostos em dar soluções e resolver problemas dos seus clientes, quando solicitados”, finalizava.
PARA ENTENDER

– O Dia da Revolução Constitucionalista é comemorado em 9 de julho. O feriado foi oficialmente criado em 1997.
– O movimento se colocava contra ditadura de Getúlio Vargas, que tomou o poder em 1930.
– A insurreição se devia à não convocação de eleições para a nova Assembleia Constituinte. Sentindo-se traídos, representantes do Exército e políticos paulistas resolveram se rebelar.
– O estopim do levante foi o assassinato de quatro estudantes paulistas por policiais, em um conflito no dia 23 de maio, data que também entrou para a história do Estado.
– A burguesia paulista exigia uma nova Constituição. O movimento se iniciou em 9 de julho de 1932, durando três meses. Seu encerramento se deu em 2 de outubro daquele ano com a rendição dos paulistas.A1 REVOLUÇÃO MARCA DAGUA.jpg

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