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As histórias de um baiano arretado

ARNOM GOMES – ARAÇATUBA

Na última terça-feira, Beltrão da Silva Santos estava abrilhantando a festa de aniversário de 70 anos de uma grande amiga: Wanilda Borghi, desenhista e escritora. O músico era só felicidade. Com seu inseparável violão e chapéuzinho na cabeça, emocionava os convidados com clássicos da MPB (Música Popular Brasileira) e do samba.
Ele sabe muito bem qual é a emoção de se tornar um septuagenário. Há quase dois anos, sua esposa lhe surpreendeu com uma grande festa, oportunidade em que esteve em Araçatuba uma certa Maria Aparecida, sua querida “professorinha” primária de Ibiassucê, no interior da Bahia, terra natal do biografado.
Perto dos 72, a história deste “baiano araçatubense” e de sua família acaba de virar livro. “Baianos Arretados – a saga” acaba de sair do prelo para levar ao público a história de um baiano que adotou Araçatuba e, por aqui, fez uma legião de amigos, a maioria formada nas diferentes searas pelas quais passou em sete décadas de vida.
Beltão explica que o título do livro provém de um vocábulo nordestino – arretado – que significa, entre outras definições, “atirado, que não tem medo, elegante”. E ressalta: “Como a história narra a saga de uma família, colocamos no plural ‘Baianos Arretados – a saga'”.
CARREIRA
No caminho, Beltrão foi professor de matemática, bancário… Com o tempo, desenvolveu-se como músico. É conhecido na cidade como violonista, sambista e seresteiro. Foi precursor de grupos musicais que emocionaram e ainda emocionam muita gente: Raízes do Samba e Flor de Liz. Fez parte também do grupo Amigos da Seresta.
Ele conta que a ideia de escrever um livro já vem de algum tempo. Mas, recentemente, incentivado por alguns amigos e amigas que ouviam seus relatos, resolve colocar em prática o desafio de escrever algo quue pudesse deixar registrada toda essa história. Esta autobiografia é dedicada à sua esposa e parceira inseparável nos palcos da vida, Maria Lúcia Beltrão. E ainda aos filhos Letícia e Lucas, aos enteados Cristiano, Geórgia e Daniel à memória de sua mãe, Judite, e da professora Maria Aparecida.
Beltrão, no entanto, faz uma ponderação logo no início da obra. Diz que seu livro não se trata de mais uma daquelas histórias emocionantes de fugas de estados nordestinos por causa da seca. Isso, avalia ele, já foi brilhantemente abordado em músicas como “Asa Branca” e “Pau de Arara”, de Luiz Gonzaga.
E diz ele, logo nas primeiras palavras de seu trabalho: “A Bahia é um dos estados da região menos castigados por esse triste fenômeno”. Sua saída do nordeste brasileiro, explica, está associada à “busca por novos horizontes”, com foco na continuação do estudos e na vontade de vencer na vida.
A admiração pela região onde nasceu é tanta que serviu para inspirar a capa do livro. A ilustração é de uma paisagem nordestina. Na parte da frente, vários cactos, cerca de madeira, pássaro típico de lá e mato ressequido; na parte de trás, um umbuzeiro, árvore presente na caatinga do Nordeste. Toda essa ideia foi executada em traços e cores por dona Wanilda, a amiga de longa que, na última terça-feira, chegou aos 70.
DIVISÃO
Toda essa história é contada em 145 páginas que, além do relato de Beltrão, feito à escritora Marilurdes Campezi, membro da Academia Araçatubense de Letras e editora da obra, traz ainda uma coletânea de poemas e músicas de Beltrão e fotos de momentos que marcaram sua vida ao lado de familiares e amigos, nos bancos escolares ou propriamente ditos e na música, uma de suas maiores paixões.
“Não tive dificuldade em mentalizar os fatos, embora tenha deixado para trás alguns deles. Como é uma história baseada em fatos reais, foi fácil lembrar desses acontecimentos até com alguns detalhes”, conta.
Apesar de o livro contar toda uma história de vida, a passagem dos seus 70 anos, em 2017, é considerada a parte mais emocionantes. “O salão repleto de inúmeros amigos de todas as épocas e de vários lugares, as presenças inesperadas da minha professora do primário e do colega daquela época, o doutor Arquimedes, hoje médico em Caculé (BA), foi indescritível”, conta. Quem estava lá naquele momento sabe descrever a emoção de Beltrão.

 

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