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Especialista em investigação de crimes de alta tecnologia fala sobre os desafios diante de novos modos de crimes cibernéticos

Vitor Moretti – Araçatuba

Golpes cibernéticos têm se tornado cada vez mais comuns no Brasil. Na região de Araçatuba não é diferente. São várias maneiras de enganar as vítimas e conseguir arrecadar dinheiro. Trata-se de uma investigação difícil, que envolve a área de tecnologia. Um dos mais recorrentes nos últimos meses é o golpe do WhatsApp, ou seja, o criminoso clona o aplicativo de seus alvos, se passa por eles e pede dinheiro aos contatos, enviando alguma desculpa.
Por esse motivo, a Polícia Civil do Estado de São Paulo tem capacitado, cada vez mais, seus integrantes. Uma linha de frente de combate foi instalada para investigar, especificamente esses crimes.
A reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL entrevistou o delegado de polícia Higor Vinicius Nogueira Jorge. Ele atual em Santa Fé do Sul, no extremo noroeste do estado e é membro da Associação Internacional de Investigação de Crimes de Alta Tecnologia (HTCIA). Além disso, ele acumula experiências como professor dos cursos de formação e aperfeiçoamento da Academia de Polícia do Estado de São Paulo, de Inteligência Cibernética da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e atua nas áreas de Direito Digital.
Nos últimos anos, o delegado também palestrou em diversos estados brasileiros e até mesmo no exterior, sempre levando sua experiência na área tecnológica aos outros países. Confira abaixo, a entrevista completa com a reportagem.

Em sua opinião, por que esse tipo de crime tem se tornado cada vez mais comum?
Nos últimos dias, a Polícia Civil de Santa Fé do Sul, não só aqui da região, mas de todo o país, registrou ocorrências de pessoas que tiveram a sua conta de WhatsApp clonada. Também, geralmente até a conta telefônica. Trata-se de um golpe que envolve essa subtração da identidade virtual das pessoas e, por consequência, de aplicativos de comunicação. A Polícia Civil de Santa Fé do Sul tem investigado esse tipo de conduta e a ideia é esclarecer os fatos, identificar os autores, para que essas pessoas sejam devidamente punidas. Com o objetivo de prevenir esse tipo de conduta, estamos preparando um material relacionado à prevenção para esse tipo de golpe e orientando as pessoas sobre o que fazer quando estiver diante do tipo de ato fraudulento. Nos próximos dias, esse material será amplamente divulgado.

Como esses criminosos agem?
O criminoso procura uma empresa de telefonia, se passa pela vítima, geralmente apresentando dados falsos, informa que teve o seu celular perdido ou subtraído, e faz com que a operadora transfira para ele ou o celular apresentado na operadora ou a sua linha telefônica. Ou seja, a linha telefônica da vítima é passada para o criminoso, que a utiliza como se fosse dela. O grande problema é que o estelionatário habilita os aplicativos de comunicação, em especial o WhatsApp e o Telegram. Em posse dessas informações, ele entra em contato com os amigos das vítimas e pede dinheiro a elas. Muitas dessas pessoas que caíram nos golpes receberam uma solicitação de um site de compra e venda na internet, onde constava a necessidade de informar um código que havia sido enviado por SMS. A pessoa, de boa fé, acabava informando esse código. O criminoso, com isso, clonava o celular. Por exemplo, eu tenho um determinado telefone e adquiro outro celular. Para que eu instale o WhatsApp no outro aparelho e faça que o aplicativo não funcione mais no antigo, será enviada uma senha, um código de quatro dígitos. A vítima, sem perceber, informa isso ao criminoso e a partir daí o seu WhatsApp passa a ser clonado e utilizado indevidamente pelo golpista. Com o aplicativo clonado, o criminoso manda mensagem para todos os contatos da vítima e pede dinheiro, seja porque ele diz que seu veículo está quebrado ou até mesmo dizendo que está passando por algum problema de saúde grave. A partir disso, a vítima acredita na história e transfere o dinheiro, causando muitos prejuízos. Já tivemos casos de pessoas com prejuízos muito grandes. Por exemplo, o criminoso se passou por determinada pessoa e conseguiu arrecadar cerca de R$ 80 mil.

Nós percebemos que os perfis das vítimas são variados, de todas as classes sociais. Como se prevenir desses tipos de golpes?

Existem alguns procedimentos que devem ser adotados para evitar que as pessoas sejam vítimas desse tipo de golpe. Um deles é a chamada confirmação em duas etapas. É necessário acessar o seu WhatsApp e no item configuração, acessar a conta e clicar em confirmação em duas etapas. Em alguns aplicativos leva-se o nome de verificação em duas etapas. Nesse caso, será necessário cadastrar um e-mail e uma senha, chamada de pin de segurança. Essa senha numérica, de seis dígitos, será solicitada sempre que existir alguma dúvida quanto à identidade da pessoa que tiver utilizando aquele serviço de comunicação. Além disso, sempre que a pessoa utilizar uma nova conexão de wi-fi ou tentar instalar o aplicativo em outro celular vai ser necessária a colocação da senha. Esse procedimento acaba evitando que o WhatsApp seja clonado. Se a pessoa for vítima dessa clonagem, ela deve procurar a operadora, obter novamente sua linha telefônica. Com isso, habilitar o seu perfil no WhatsApp e imediatamente configurar a verificação em duas etapas. Ao saber que foi vítima do golpe, avisar os amigos, por meio das redes sociais, e comunica-los que alguém está usando o seu nome. Por fim, enviar um e-mail para: support@whatsapp.com, informando que sua conta foi clonada. A partir disso, o WhatsApp vai bloquear temporariamente o seu aplicativo.

Como a polícia tenta identificar os estelionatários? É uma investigação difícil de se fazer?
A investigação é complexa, envolve a utilização de ferramentas tecnológicas, mas que permite sim ter um resultado muito positivo. Inclusive, a Academia de Polícia do Estado de São Paulo tem capacitado seus integrantes nessa área de investigação criminal tecnológica para que cada vez mais policiais estejam preparados para enfrentar, com eficácia, esse tipo de delito.

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