Araçatuba

O fogo e uma tarde com morte, destruição total e muito sofrimento no centro comercial de Araçatuba

O colapso da estrutura de uma loja e o pior: a perda de uma vida e outra, em estado grave.
Este foi o saldo de um incêndio de grandes proporções ocorrido, no início da tarde de ontem na Cris Park, uma loja de bijuterias e acessórios localizada no calçadão da Rua Marechal Deodoro, no Centro de Araçatuba.
Sargento do Corpo de Bombeiros de Araçatuba, Júlio César Delfino foi um dos primeiros oficiais da corporação a chegar ao local. No momento em que ele fazia seu trabalho, parte do teto do imóvel desabou. Seu corpo ficou preso nos escombros. Somente, no fim da tarde, foi encontrado. A vítima era casada e tinha uma filha.
A tragédia no calçadão trouxe outra aflição para os bombeiros. Alex Silva de Abreu, que também trabalha em Araçatuba, teve 30% de seu corpo queimado. Na noite de ontem, a Santa Casa de Araçatuba, onde ele permanecia na UTI, informou que o bombeiro seria transferido para o Hospital Estadual de Bauru, especializado em queimados. Não havia confirmação se o transporte seria feito pelo helicóptero Águia, da Polícia Militar.

DE CIMA
Equipe de perícia ainda vai confirmar a real causa do acidente e se estabelecimentos vizinhos também foram atingidos pelas chamas. No entanto, informações preliminares dão conta de que o fogo teve início no andar superior do estabelecimento, onde fica o estoque. Passava-se pouco mais de duas horas da tarde, quando houve a primeira explosão. Desesperados, funcionários foram orientados a deixar, de imediato, o estabelecimento. Era o início de um incêndio de proporção jamais vista naquela região da cidade.
Em questão de minutos, uma enorme nuvem de fumaça, possível de ser vista de diferentes pontos da cidade, como a avenida Brasília, formava-se por parte do principal corredor comercial do município. Logo também, uma multidão de olhares curiosos, ao mesmo tempo espantados, juntava-se próximo da loja.
Cerca de vinte minutos depois, nova explosão. Dessa vez, além da fumaça, era o fogo que começava a se alastrar com mais intensidade. “É o fim”, dizia uma funcionária do comércio, sob lágrimas. A expansão do fogo seria ainda um “recado” para que todos que estavam ao redor, filmando ou tirando fotos, não se aproximassem mais. Imediatamente, todos saíram correndo. Foi quando equipes do Corpo de Bombeiros chegaram ao local, juntando-se a guardas municipais que acompanhavam a movimentação. Depois, chegaram policiais militares.
Até aquele momento, não havia notícias de feridos. Mas, parecia filme de terror. “Estamos acostumados a ver isso nos grandes centros, pela televisão. Não é comum acontecer por aqui”, afirmou um estudante de 14 anos de idade, filho de uma comerciante, proprietária de um café na rua Carlos Gomes.
O combate ao incêndio precisou de um trabalho intenso dos bombeiros de Araçatuba e região. O órgão foi comunicado sobre o ocorrido às 14h09. Em nota oficial, divulgada no começo da noite dessa sexta-feira, a Polícia Militar informou ter disponibilizado 17 viaturas para o atendimento. Vários caminhões-pipa de usinas e da Samar (Soluções Ambientais de Araçatuba) ajudaram na ação.

TENSÃO
O trânsito de diversas ruas da área central precisou ser interditado para que a equipe de resgate pudesse chegar mais rápido e controlar o fogo. À medida que a fumaça aumentava, crescia a tensão. Um idoso se desentendeu com um policial e acabou apreendido. Em seguida, nova confusão. Observadores que consideraram exagerada a atuação do PM passaram a protestar em defesa do idoso. Enquanto isso, vendedoras choravam. Consolavam-se entre si. Telefonavam para amigos ou parentes em busca de uma mensagem de conforto naquele momento de dor.
Ao todo, 27 pessoas trabalhavam na Cris Park. Nenhum dos funcionários se feriu. Sensação igual à de quem trabalha lá era das garçonetes de uma lanchonete localizada ao lado do imóvel consumido pelo fogo. Aos prantos, diziam não entender o que estava acontecendo. Não escondiam, por outro lado, o temor de que o fogo levasse tudo o que havia onde tiram seus sustentos. Para evitar uma tragédia ali também, assim que viu o princípio de incêndio, uma funcionária da lanchonete esvaziou o local e desligou equipamentos elétricos e o gás de cozinha.

NA CHINA
Segundo o presidente da Alca (Associação dos Lojistas do Calçadão), César Braga, a loja que pegou fogo está com seus alvarás de funcionamento e de vistoria em dia. O estabelecimento conta também com seguro, informou ele.
De acordo com o representante dos comerciantes daquela região, os donos da Cris Park são chineses. Eles não estão no Brasil, porém, souberam do ocorrido e, ontem mesmo, já providenciaram a vinda para Araçatuba.
Braga disse ainda que, apesar do ocorrido, o comércio estará aberto normalmente neste sábado.

Prefeito decreta luto de 3 dias

O prefeito Dilador Borges (PSDB) decretou luto oficial de três dias pela morte do sargento Delfino.
Em nota, ele disse:
“É com o mais profundo pesar que recebo a informação da morte do sargento Júlio César Delfino, bombeiro que trabalhou no combate ao incêndio no calçadão da nossa cidade nesta sexta-feira. Eu passei a tarde toda no local e acompanhei de perto a bravura dos bombeiros em ação. Não mediram esforços para apagar o fogo. Por isso, a morte do sargento torna esse incêndio uma verdadeira tragédia! Que Deus conforte os corações de todos os familiares e amigos”.
A presidente da Câmara Municipal, Tieza Marques de Oliveira (PSDB), também divulgou à imprensa nota sobre a tragédia. Ela se disse “profundamente consternada” com a morte do bombeiro. Ela o classificou como um “herói” que perdeu a própria vida para salvar outras.

ARNON GOMES
ANTONIO CRISPIM
HELOÍSA ALVES
VITOR MORETTI
Araçatuba

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