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Tragédia não desanima araçatubense, que promete honrar ideais dos amigos mortos

ANTÔNIO SOARES DOS REIS – Araçatuba

Há mais de uma semana sem treinar devido ao incêndio no CT Ninho do Urubu, o araçatubense Felipe de Almeida Lima, de 13 anos, assumiu outra responsabilidade no Rio de Janeiro, para onde se mudou com a família no início deste mês: iniciou o ano letivo para cursar a oitava série do ensino fundamental. O professor Cícero Lima, diz que o filho é determinado e garantiu que não desistirá do sonho de se tornar um jogador de futebol profissional no clube mais popular do Brasil. Segundo o pai, o garoto já se recuperou do abatimento inicial provocado pela tragédia. Felipe prometeu perseguir o sucesso como forma de homenagear os amigos mortos no incêndio.
Desde o dia 8 deste mês, o dia da tragédia, o CT do Flamengo está sem treinos. Muitos adolescentes voltaram para suas cidades ou para suas casas no Rio, os que moram lá. Ontem, o araçatubense iniciou um treino particular com um professor de Educação Física para manter o preparo físico. O pequeno meia atacante já está cursando o oitavo ano do ensino fundamental e na manhã de anteontem, quando o incêndio completou uma semana, ele estava na escola. Segundo o pai, Felipe já está aceitando mais a perda dos amigos, três deles conhecidos desde os tempos do Clube Athlético Paranaense, apesar de o meia Gedson Santos, 14 anos, o Gédinho, ser o mais íntimo. Felipe entrou em estado de choque quando soube da morte de Gedson, Bernardo Pisetta (15 anos, goleiro) e Vitor Isaias (14, atacante), companheiros de Athlético Paranaense, onde jogou até dezembro passado. Felipe não podia ficar alojado porque só tem 13 anos e mora em casa com a família.
Cícero Lima, a esposa Fabiana e o único filho chegaram ao Rio no início do mês, quatro dias antes do incêndio. No dia seguinte, uma terça-feira, Felipe se apresentou no Ninho do Urubu, treinou e repetiu a atividade na quarta. No primeiro dia de treinamento no CT do Flamengo, Felipe estava muito feliz por ter reencontrado Gedson. Na quinta-feira, não houve treino devido às chuvas que caíram na capital carioca e provocaram grandes transtornos, inclusive com mortes. Na sexta, a família acordou com o barulho dos helicópteros, viaturas da polícia, bombeiros e ambulâncias que trabalhavam no combate ao fogo e no socorro à vítimas. A casa deles fica a três quilômetros do CT do Rubro-Negro. Desde então, a rotina de Felipe como atleta não teve novidades.
De acordo com o pai de Felipe, a tragédia ocorreu a uma semana da mudança de alojamento. No CT tem um alojamento para os jogadores profissionais e outro para a base. Os atletas do time principal foram para um alojamento recém-construído e o que era ocupado por eles seria utilizado para alojar os garotos da base. “Mas não deu tempo”, lastimou Cícero. Extra-oficialmente, embora o Flamengo não tenha se manifestado, a expectativa dos pais e dos jovens é de que os treinos voltem após o Carnaval na sede da Gávea ou no Campo do Zico, dois ambientes já utilizados pelo Rubro-Negro para treinos do profissional e das categorias de base.
Os pais, assim como Felipe, se mantêm firmes no propósito de continuar no Rio. Cícero e Fabiana se mudaram para a capital carioca para dar suporte à carreira de Felipe, filho único, que em Araçatuba é conhecido como Lima e jogava no Novo Paraíso, que disputa competições organizadas pela Liga de Futebol Menor de Araçatuba e Região (Lifmar). O garoto, segundo o pai, tem portas abertas em outros grandes clubes cariocas, mas o objetivo inicial, de seguir carreira no Rubro- Negro, não será abandonada.”Temos esperança”. E agora, a esperança está fortalecida, pois Felipe quer fazer de seu sucesso um trofeu de homenagem aos amigos mortos.

OS MORTOS
Os dez mortos carbonizados no Ninho do Urubu foram Christian Esmério (15 anos, goleiro com passagem pela Seleção Brasileira, categoria sub-15), Arthur Vinicius (14 anos, zagueiro), Athila Paixão (14, atacante), Bernardo Pisetta (15, goleiro), Jorge Eduardo (15, lateral esquerdo), Pablo Henrique (14, zagueiro), Samuel Thomas Rosa (15, lateral direito), Vitor Isaías (14, atacante), Gedson Santos (14, meia) e Rykelmo de Souza Vianna (volante).
O fogo começou a ganhar proporção por volta das 5h10 do dia 8 deste mês e foi controlado pelo Corpo de Bombeiros perto das 7h. O CT alojava garotos de 14 a 17 anos. Os campos do CT Ninho do Urubu são utilizados tanto pelo time profissional quanto pelas categorias de base do Flamengo. O assunto foi destaque na imprensa internacional.
Maior ídolo da história do Flamengo, Zico recebeu a notícia no Japão, onde trabalha como diretor técnico do Kashima Antlers. Ele comentou com muita tristeza sobre o acontecimento. Zico foi enfático ao cobrar uma posição das autoridades. “Que se apure tudo pois uma tragédia dessas não pode passar em branco. Vidas se foram. Que a Nação Rubro-negra tenha força e fé para superar esse momento”, emendou.

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