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Da escola pública para o sucesso no vestibular mais concorrido do Brasil

ARNON GOMES – Araçatuba

Dois jovens araçatubenses fazem parte de uma estatística que ainda precisa avançar no Brasil: a presença de estudantes oriundos de escola pública nas universidades federais e estaduais. Pesquisas mostram que menos da metade dos alunos egressos das instituições de ensino mantidas pelo governo estão no ensino superior gratuito. Entretanto, Thiago Gimaiel Francisco, de 17 anos, e Renan Pereira Falcão, 18, se superaram. Ambos passaram no vestibular da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) e, amanhã, inciam uma nova fase em suas vidas: estudar na USP (Universidade de São Paulo), referência em qualidade de ensino em todos os seus cursos.
A história destes rapazes se engrandece ainda mais pelo resultado obtido no processo seletivo. Thiago passou em primeiro lugar em engenharia física. Renan, por sua vez, passou na 22ª posição no funil que é a prova para entrar na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, onde se formaram personalidades notórias do Brasil. Histórias que são motivo de orgulho para suas famílias e para a Etec (Escola Técnica Estadual) de Araçatuba, onde cursaram o ensino médio. “Nós, como professores, sempre prezamos pela qualidade de ensino. Ver o crescimento deles, ao longo dos anos, é motivo de muita satisfação para a gente. Nós nos realizamos com cada aprovação, mas também com cada objetivo pessoal deles alcançado”, diz o coordenador do ensino médico da escola, Eder Alves Pereira.
Leia, abaixo, como foi para estes jovens chegar à conquista no vestibular.

 

No vestibulinho, o início de uma história de sucesso

Quem vê este jovem alegre, um tanto brincalhão nas respostas durante a entrevista, pode não imaginar o quão dedicado Thiago é dedicado aos estudos. Antes mesmo do sucesso no vestibular, ele já se destacava. Quando passou no vestibulinho da Etec de Araçatuba, em 2015, também havia sido o primeiro colocado.
O jovem, que estudou a vida inteira em escola pública, foi aprovado ainda nos vestibulares de engenharia química da UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos) e de engenharia mecânica da Unesp (Universidade Estadual Paulista). O resultado foi motivo de orgulho para toda a família. Thiago conta que, por parte de mãe, será primeiro na família a cursar uma universidade pública. Apesar de todo empenho dedicado ao vestibular, na véspera da divulgação do resultado, Thiago estava apreensivo. Mal conseguiu dormir, conta ele. Mas, quando o viu a classificação, lágrimas da mãe, que é dona de casa, e do pai, aposentado. Foi a coroação de todo um esforço.
Thiago estudou o ensino fundamental na Emeb (Escola Municipal de Educação Básica) Euza Neuza, bairro Hilda Mandarino. Na segunda etapa do fundamental, foi para a EE (Escola Estadual) Clóvis de Arruda Campos, o “Paraisão”. Depois, chegou à Etec. Lá, a rotina foi puxada nos últimos anos. Cursou o ensino médio, mas, a partir do segundo ano, passou a fazer o curso de técnico em química. No ano passado, mesmo dividindo a rotina do ensino médio com o curso profissionalizantes, Thiago conseguiu estabelecer uma rotina de estudos.
“No começo, não pegava muito firme nos estudos. Mas, a partir do terceiro, ficava bastante tempo na escola, revisava o que aprendia nas aulas, fazia as tarefas…”, diz Thiago, que não passou por nenhum curso pré-vestibular. A preparação, afirma ele, contava com altas doses de exercícios de química, física e matemática, disciplinas que iriam lhe garantir maior pontuação nos exames de seleção. E focava também em português, por causa da redação.
Sempre interessado em engenharias, ele conta que chegou á física após fazer pesquisas. “Eu queria engenharia qiimica, mas não achava tão interessante assim. Até que, um dia, pesquisando, encontrei a engenharia física. Daí, fui ver e vi que trabalha na construção e desenvolvimento de novas tecnologias. Isso me interessou bastantes. É um curso novo, que poucas universidades disponibilizam”, conta ele.
Para realizar esse sonho, a vida de Thiago vai mudar bastante. Ele ficará a pelo menos 700 quilômetros de Araçatuba, onde mora toda a sua família. Vai estudar no Câmpus da USP em Lorena, região de São José dos Campos. Dos cuidados dos pais, ele passará a dividir um apartamento com um “veterano” da engenharia física. Vindas para Araçatuba, agora, admite ele, só aos feriados prolongados.

 

‘Ficha não caiu’, diz jovem que tem a leitura como motivação

Antes desta segunda-feira, Renan não se conteve. Foi conhecer o suntuoso e histórico prédio da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Encantado, quando chegou lá, perguntou a si próprio: “Será que vou estudar aqui mesmo?” E ressalta: “Quando cheguei lá, até me arrepiei. Tirei até foto junto ao busto de Álvares de Azevedo”. Ao falar com a reportagem sobre tamanha emoção, ele admitiu: “A ficha ainda não caiu”.
Mas é fato. A partir de amanhã, frequentar aquela construção de 192 anos, onde se formaram 13 presidentes da República, será rotina na vida deste araçatubense. O caminho até o ensino superior foi também marcado pela superação. Ele conta que, durante o ensino fundamental, estudo em escola particular. Porém, quando foi para o médio, um pouco por dificuldade financeira da família, foi para a escola pública. Ingressou na ETEC, mas, desde o início, já sabia que queria o Direito. Tudo por uma simples razão: a leitura. Quando ainda estudava, chegou a participar de uma visita para conhecer o Fórum local. “Sempre gostei muito de ler”, diz.
A preparação para o vestibular, cujo curso escolhido tinha mais de dez mil candidatos, começou ainda no segundo ano do ensino médio. A tarde era o período dedicado exclusivamente ao estudo. No ano passado, fez o cursinho pré-vestibular do Daca (Diretório Acadêmico Carlos Aldrovandi) da Unesp, em Araçatuba. O resultado não poderia ter sido mais do que satisfatório. Além da aprovação na Fuvest, passou também no vestibular da Unesp.
Além da leitura, o garoto sempre encontrou na família, moradora do bairro Jussara, o estímulo necessário para estudar. Filho de pai que é funcionário público aposentado, Renan destaca que sua mãe se formou em Pedagogia há dois anos. “Ela sempre foi liberal, mas daquele jeito: se quer algo, tem que se esforçar para alcançar seu objetivo”. Filho único, Renan terá como um de seus maiores desafios o desapego da família, principalmente dos avós, com quem conviveu a maior parte do tempo.

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