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ARNON GOMES – ANDRADINA

Manhã de sexta-feira, 27 de dezembro. O chorinho do pequeno Luís Otávio, nas primeiras horas do dia, possível de se ouvir do lado de fora de sua humilde residência, em Andradina, revelava uma situação. Era o começo de uma nova fase para Wesley Serafim Dias do Nascimento, pai daquela criança, então com apenas quatro dias de vida.
Naquela data, fazia um dia que sua companheira e mãe do bebê, Isabela Godim Gomes de Oliveira, fora sepultada. Aos 16 anos de idade e cheia de planos, Isabela morreu um dia após dar à luz o menino, uma história que amigos e familiares ainda não conseguem entender. Foi o triste fim de uma angústia iniciada havia pouco mais uma semana.
O drama começou no último dia 20, quando a jovem teve sangramentos. Logo, passou pela UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e pela Santa Casa de Andradina. Foi liberada na manhã de 22 de dezembro, domingo passado. No entanto, o problema voltou. Amigas próximas contam que, além de novos sangramantos, a garota reclamava de dores e estava com a barriga inchada.
Novamente, ela foi levada à UPA, de onde recebeu encaminhamento, no período da tarde, para a Santa Casa de Araçatuba. Lá, foi internada. No dia seguinte, a cesárea. O parto de Luís Otávio, previsto para a primeira quinzena de janeiro, teve que ser antecipado. Ele nasceu bem. Veio com 3,190 quilos e pesando 48 centímetros.
Mas a chegada de Luís Otávio não pôde ser comemorada. Wesley, que acompanhava o parto, teve que deixar a sala onde o procedimento era realizado assim que a criança foi tirada da barriga. A pressão de sua mulher havia caído e os batimentos cardíacos pararam. Ela sofrera parada cardíaca. A equipe médica conseguiu renimá-la, mas precisou interná-la na UTI do hospital. Lá, ficou até o dia 24, véspera de Natal, quando faleceu.
NOVA ROTINA
Diante de tudo o que testemunhou, mesmo sem “a ficha ter caído”, Wesley não escondia o abatimento. O rapaz, de 29 anos, procurava mostrar habilidade em sua nova rotina – de ser pai pela primeira vez e, de alguma forma, fazer o papel de “mãe” do menino. Ao receber a reportagem de O LIBERAL REGIONAL, tentava fazer seu menino parar de chorar. Antes, havia trocado a fralda. “Vou ficar com ele e vou cuidar com todo o amor”, disse o rapaz, que, após um tempo desempregado, passou a trabalhar como mototaxista.
Na casa de tábuas, na Vila Mineira, onde começou a morar com Isabela em março, um mês após o início da relação, Wesley procura manter intacto o que a jovem mãe deixou para seu filho. Nas gavetas da cômoda, evitava até mexer nas roupinhas de Luís Otávio que foram deixadas dobradas por Isabela. “Ela não via a hora de a criança nascer”, conta o pai, que, antes de Isabela, fora casado por cinco anos com Carolina, que morreu de câncer em 2017.
APOIO
De duas amigas de Isabela, ele recebe o suporte nesse momento de adaptação. Vanessa Fernanda Alves Gomes, de 35 anos, estava ao lado de Wesley naquele momento de aprendizado. Ela o ensinava até como segurar o bebê.
Tamanho envolvimento tem justificativa. Casada com Sergio Alves Gomes, 30, Vanessa é mãe de uma menina de três meses. Por outro lado, foi, literalmente, amiga de Isabela por todo o seu curto tempo de vida. Pegou-a no colo. Quando debutou, foi da amiga vinte anos mais velha que Isabela recebeu uma “festinha” de 15 anos. Por tudo isso, da amiga que se foi, só boas lembranças ficarão na memória de Vanessa. Uma delas é o canto, que fazia entoar na Igreja Deus é Amor. “Ela cantava muito. Parecia uma voz que vinha do céu. Sonhava em gravar um CD”, conta.

 

Avós vão requerer guarda da criança na Justiça

Por trás de toda essa história, há uma relação familiar conturbada, que deve levar a guarda de Luís Otávio a ser objeto de disputa judicial. Procurados pela reportagem, os pais de Isabela, Patrícia Dias Godim e Paulo Gama de Oliveira Filho, disseram que pretendem recorrer à Justiça para garantirem o direito de cuidar do neto.
O casal, que, no início, aceitou o namoro de sua filha com Wesley, acusa o rapaz de violência contra a garota. “Isso acontecia direto. E ela teve um período difícil de gravidez, que eu acompanhei mesmo de longe. Eu sei de toda essa história”, diz Patrícia. Ela afirma que só ficou sabendo da angústia vivida pela filha até o nascimento do bebê por meio de outras pessoas. “Ele a impedia de falar conosco. Deixava-a sem alimentação”, acusa a mãe
PROTEÇÃO
O LIBERAL obteve acesso a processo contra Wesley, movido por Patrícia, e apurou que o caso provocou várias idas e vindas na Justiça de Andradina ao longo do segundo semestre deste ano.
Em agosto, Patrícia requereu à Justiça a concessão de medida protetiva para ela e a filha contra Wesley. O pedido foi feito após uma briga que envolveu Isabela, Patrícia, Wesley e sua mãe, Dilma Serafim Dias. Conforme boletim de ocorrência, na ocasião, ocorreram agressões físicas e verbais.
De acordo com o registro policial, Wesley deu socos na barriga de Isabela. Sendo assim, em 31 de agosto, a juíza Thais da Silva Porto acatou o pedido de Isabela e Patrícia, que recebeu parecer favorável do Ministério Público, e determinou a medida protetiva por 180 dias. A decisão teve base na Leia Maria da Penha.
Mas, em 12 de setembro, o juiz Jamil Nakad Júnior, também de Andradina, revogou a sentença anterior. Sua decisão considerou depoimentos de vizinhos de que não havia qualquer tipo de violência doméstica entre as partes. Isso, disse o magistrado, “indica ser precipitado manter o acusado em custódia”.
Apesar do que foi decidido, não demorou muito para o caso voltar à esfera judicial. Em 11 de dezembro, portanto 13 dias antes de Isabela morrer, o juiz Jamil Nakad decretou a prisão preventiva de Wesley, com base em novas denúncias de que ele estaria praticando violência contra a filha de Patrícia. Entretanto, um dia depois, o mesmo juiz revogou a decisão. No veredicto em que concedeu liberdade provisória a Wesley, o magistrado usou os mesmos argumentos mencionados quando revogou as medidas protetivas três meses antes.
Em entrevista ao LIBERAL, Wesley negou as acusações e disse que seus desentendimentos com Isabela eram situações “normais a qualquer casal”. Patrícia, por sua vez, diz: “Eu só quero Justiça”.

 


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