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UNIDADE DE MEDIDA

Gustavo Carneiro Ariano

Este ano completam-se 14 anos que me graduei no ensino superior. Nesse intervalo de tempo fui professor universitário e inúmeros cálculos realizei em minha trajetória profissional. Porém, lembro-me com clareza da minha primeira nota zero na vida, foi no ano de 2001, prova de física I com o professor Abílio, no primeiro semestre do curso de Engenharia Sanitária na Universidade Federal de Mato Grosso – o motivo: a unidade de medida.
Lembro-me que acertei com precisão o resultado final da prova, com 3 casas depois da vírgula, sai após 2 horas da avaliação com a certeza de que tinha gabaritado. Na semana seguinte vi no mural do departamento de física minha nota e não tive dúvidas, fui questionar o docente em sua sala. O professor Abílio, com sua simplicidade e experiência de décadas naquela posição, abriu uma gaveta e encontrou minha prova, em seguida perguntou qual era minha dúvida.
Eu Disse a ele que havia acertado o resultado, com precisão, mas não havia entendido o zero. Ele então questionou “O resultado que você obteve foi em bananas, laranjas ou limões ? Qual a unidade de medida ?” Na minha arrogância juvenil insisti “qual a importância disso professor ? Tanto faz, o importante é que o número está correto!” Ele então guardou minha prova e disse “rapaz, a unidade de medida é tudo… poderia ser sua mãe, seu irmão ou alguém da sua família”.
Esta semana lembrei novamente deste episódio, da pior forma possível. Perdemos uma pessoa muito próxima e querida da nossa família que compõe um lamentável quadro estatístico desta pandemia, 16.118 mortes no Brasil no momento em que estou escrevendo este artigo.
Talvez para o leitor não faria diferença se eu escrevesse 16.117, mas o fato é que a unidade de medida deste cálculo é pessoas, vidas, mães, avós, filhas, tias, enfim… para mim faz toda a diferença. Obrigado professor Abílio por me ensinar e continuar me ensinando até hoje que a calculadora pode até calcular, mas é o ser humano quem traz sentido aos números.
Certamente Abílio se apoiou sobre ombros de gigantes, como o físico Albert Einstein que disse “Temo o dia em que a Tecnologia se sobreponha à nossa humanidade. O mundo só terá uma geração de IDIOTAS”. Percebo hoje claramente que tirei zero com louvor.

Gustavo Carneiro Ariano é enge-nheiro sanitarista pela UFMT, mestre em hidráulica e saneamento pela USP e especialista em regulação na Arsesp.


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