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Crítica do filme “Godzilla 2”

O Godzilla é uma das joias sagradas do cinema japonês, e rendeu dezenas de filmes ao longo dos 50 anos desde o lançamento do original. Marcados por um estilo muito particular e próprio da cultura oriental, o sucesso do lagarto radioativo foi tão grande que ele se tornou uma espécie de super-herói no país, com seus filmes explorando esse lado de forma bizarra e excêntrica – desde confrontos com versões do espaço, robôs gigantes e até crossovers com Ultraman.
No cinema americano, o monstro ganhou duas fases. A primeira veio com o divertido, mas criticado filme de Roland Emmerich em 1998, que praticamente o transformou em um exemplar do cinema catástrofe – especialmente considerando o contexto pós-Independence Day. A mais recente começou em 2014 quando a Warner e a Legendary contrataram o cineasta Gareth Edwards para iniciar a ambiciosa proposta de um universo similar ao da Marvel Studios, mas habitado por grandes monstros da cultura pop.
Após o ótimo filme de 2014 e o divertido Kong: A Ilha da Caveira, o kaiju retorna em Godzilla II: Rei dos Monstros, que agora traz mais algumas das criaturas clássicas do cinema japonês, parte da franquia Toho. Infelizmente, o resultado do novo filme é uma grande decepção quando o comparamos aos anteriores, simplesmente pelos realizadores não compreenderem o potencial que seu poderoso protagonista oferece – levando-o à sério demais.
Escrito pelo diretor Michael Dougherty (do terror Contos do Dia das Bruxas) e Zach Shields, o roteiro de Godzilla II: Rei dos Monstros coloca um mundo dividido. A batalha de São Francisco no final do anterior revelou Godzilla para o mundo, que pensa em formas de lidar com sua presença no planeta. Ao mesmo tempo, seu despertar motivou mais outros monstros (chamados de Titãs) a saírem das profundezas, e um em particular oferece uma ameaça perigosa para o planeta: o Rei Ghidorah. Diante desse perigoso oponente, Godzilla se levanta mais uma vez para assumir o posto de criatura mais poderosa do planeta.
Pode parecer inacreditável, mas um filme sobre monstros gigantes lutando consegue ser incrivelmente chato. Um dos pontos fracos do primeiro filme era o foco desnecessário em personagens humanos mal desenvolvidos, mas Rei dos Monstros leva esse erro além ao trazer ainda mais figuras humanas e incontáveis subtramas que não fazem o menor sentido.
A impressão que fica é que os realizadores tiveram medo de abraçar a galhofa e a diversão que tornam o Godzilla japonês tão charmoso. Dougherty e Shields debruçam-se sobre uma abordagem mais “realista” e pautada em um discurso ecológico que tenta justificar a existência dos Titãs como forças divinas do planeta, um conceito interessante no papel, mas preguiçosamente traduzido para as telas em discursos pedantes – e que era lidado com mais elegância no filme de Gareth Edwards.
Ver os personagens de Vera Farmiga, Ken Watanabe e Kyle Chandler dialogando sobre essas ideias garante momentos de vergonha alheia total, especialmente em relação às reviravoltas ridículas envolvendo alguns deles. Nem mesmo Millie Bobby Brown, em seu primeiro grande papel no cinema após estourar na série Stranger Things, é capaz de trazer alguma presença à sua personagem; filha da cientista de Vera Farmiga. Ninguém tem muito o que fazer aqui, e Dougherty gasta tempo demais com essas figuras genéricas e pouco expressivas, e que pecam ao constantemente trazerem piadas sem graça sobre a aparência e forma dos monstros.
Quando finalmente chegamos ao tão esperado conflito entre Godzilla e os monstros, é aí que o filme consegue decepcionar ainda mais. Rei dos Monstros é um filme assustadoramente escuro, e a direção de Dougherty carece de imaginação e clareza na hora de mostrar as batalhas entre as criaturas. É difícil de enxergar graças à fotografia escura, a câmera inquieta que assume o POV dos humanos e a edição confusa, que também acaba acelerando a ação e quando você menos imagina; ela já acabou.
Por mais bizarro que essa frase possa parecer, falta monstro em um filme chamado Rei dos Monstros. Sinceramente, o único prazer genuíno está em ver o design moderno de criaturas como Ghidorah, Mothra e Rodan, que também contam com alguns dos temas musicais clássicos – em uma ótima roupagem do compositor Bear McCreary, de longe o melhor aspecto da produção.
Infelizmente, não foi dessa vez que os EUA compreenderam o kaiju. Godzilla II: Rei dos Monstros é um filme monótono, inchado na duração e que decepciona no que deveria ser um grande espetáculo de batalhas de kaiju. Só podemos torcer para que a situação melhore em Godzilla vs Kong, que já está agendado para o início do ano que vem.

Adriano Lessa
São Paulo

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