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Sobrevivente de Ilha Solteira relata terror após rompimento de barragem em Brumadinho

Vitor Moretti – ILHA SOLTEIRA

O relógio marcava 12h28. Era uma sexta-feira, 25 de janeiro de 2019. Lá estava Lieuzo Luiz dos Santos, 55 anos, que é de Ilha Solteira, região de Araçatuba, foi um dos únicos sobreviventes que trabalhava na barragem 1 do córrego da mina do Feijão em Brumadinho, Minas Gerais, quando tudo foi abaixo. Estava a 70 metros de altura e foi engolido pela lama.

A reportagem do jornal O LIBERAL REGIONAL conversou com o sondador na casa onde mora no bairro Jardim Aeroporto. Ainda se recuperando do susto, Lieuzo tem que fazer repouso absoluto, já que fraturou o fêmur e corre o risco de fazer outra cirurgia, dessa vez no joelho.

Apesar dos dois ferimentos, as equipes médicas que o atenderam em Belo Horizonte, capital mineira, comemoraram e disseram ter sido um milagre o homem ter sido resgatado em meio ao lamaçal com pouquíssimos ferimentos.

Milagre esse que até hoje não sai da memória do sondador. É difícil esquecer aquele fatídico dia. Há 35 anos na profissão, o ilhense estava cobrindo férias de um colega em Brumadinho desde o último dia 17 de dezembro, pois trabalha para uma empresa que presta serviços terceirizados à Vale. No dia da tragédia, estava no topo da barragem fazendo a instalação de um instrumento que monitora a pressão do local. Ainda abalado, ele contou à reportagem os momentos que antecederam ao rompimento fatal.

“Os meus colegas perceberam que alguns bois lá embaixo correram. A gente achou estranho isso e até comentamos um com outro o motivo disso, porque não tinha nenhuma pessoa tocando os animais. Parece que aquilo já era um aviso do que iria acontecer”.

E era. Minutos depois, sem qualquer tipo de barulho ou outra coisa que levasse à desconfiança dos funcionários, a barragem se rompeu, engolindo tudo o que via pela frente. A imagem do exato momento rodou todo o Brasil e até mesmo o exterior. O Lieuzo estava lá, em cima de uma sonda.

“De repente, eu percebi que a gente perdeu o chão e veio aquela avalanche por cima de mim. Eu cai, entrei em um funil de terra e resíduos, aquilo foi me apertando de um tanto que na hora eu pensei que já tinha morrido. Caiu máquina por cima dos meus colegas, caminhonete, tudo o que você pode imaginar”, contou.

Mas o sondador não morreu. Estava vivo, mesmo preso à lama, sem conseguir se movimentar. Lá embaixo conseguiu assimilar o que realmente tinha acontecido e só escutava o barulho da lama descendo. As seis horas seguintes foram as piores de toda a sua vida.

“Algum tempo depois eu comecei a escutar o barulho de helicópteros. Vi aeronave de reportagem, dos Bombeiros, mas eu acenava com a mão, gritava, mas ninguém me via ali. Já estava anoitecendo, eu fiquei com medo de ter que passar a noite toda ali, já não aguentava mais, minha pressão caindo e minha perna mole, quebrada”.

Lieuzo já não tinha mais força para gritar pela vida até que um soldado do Corpo de Bombeiros de Brumadinho desceu de um dos helicópteros e começou a fazer uma varredura a pé. Foi, então, que viu o sondador, vivo, implorando para ser resgatado.

“Ele me viu, o helicóptero desceu bem pertinho de mim e conseguiram me socorrer e levar até o hospital de Belo Horizonte. Só quando eu cheguei lá eu realmente percebi que não corria mais risco de morrer”.

O sondador passou por uma cirurgia por conta da fratura de fêmur. A família, que estava em Ilha Solteira, reunia a esperança de encontrá-lo com vida, pois o nome dele estava na lista de desaparecidos. No primeiro telefonema, o alívio.

“Eu tenho um parente que mora em Minas e o avisaram que eu havia sido localizado e estava bem. Ele foi até o hospital e conseguiu falar com a minha esposa pelo celular, foi aquela felicidade”.

Toda a família de Lieuzo embarcou para a capital mineira horas depois. Apesar de toda a felicidade, o pensamento do trabalhador ainda continua na barragem. Amigos de profissão dele até hoje ainda não foram encontrados. Uma dor que nem o tempo conseguirá apagar.

“É triste, muito triste. Saber das famílias que ficaram, sem notícias e muitas vezes nunca terão o corpo de seus parentes encontrados. Dói no peito”, concluiu o sondador com a voz embargada.

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