Historiador compara eleição a ‘plebiscito’ sobre ex-presidente

Muito se tem falado que a eleição presidencial de 2018 será histórica. O pleito de amanhã será o primeiro após uma série de manifestações de rua contra a corrupção que varreram o Brasil nos últimos anos e depois que a Operação Lava Jato colocou inúmeros políticos na cadeia, sendo um deles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para o historiador, mestre e doutor em Geografia pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), César Gomes da Silva, de Araçatuba, a disputa eleitoral deste ano pode ser comparada a um plebiscito sobre a popularidade ou recusa ao líder petista, que, até ficar definitivamente impedido de concorrer, liderava pesquisas de intenções de votos.
O teste consiste na análise, após a votação, de três fatores que marcaram diretamente a campanha. O primeiro é se a ligação com Lula realmente alavancará a candidatura petista de Fernando Haddad. “É importante ressaltar que o dia 7 mostrará o potencial de votos que Lula poderá transferir a seu indicado para a campanha presidencial. Diria, de modo mais resumido que esta eleição poderia ser comparada a um plebiscito quanto a popularidade ou recusa ao ex-presidente Lula”, analisa o professor, que leciona no Unitoledo (Centro Universitário Toledo).
Gomes da Silva cita, em seguida, o crescimento vertiginoso da campanha de Jair Bolsonaro (PSL) e a fragmentação da chamada “terceira via”, ou seja, candidaturas que poderiam fazer frente às duas primeiras colocadas, mas não decolaram, de acordo com números dos institutos de pesquisa de opinião do eleitorado.
“A atual eleição se tornou especial, então, em razão das polarizações e dos embates derivados de projetos, campanhas e sujeitos políticos diametralmente distintos”, analisa o estudioso. “De modo mais preciso há um sentimento de indignação e injustiça que atravessa o imaginário coletivo. Como resultado dessa descrença nos líderes e partidos políticos, vemos parte da sociedade buscando radicalizar pela recusa aos projetos da esquerda, enquanto outra parcela aprofunda o discurso contra o autoritarismo”, complementa.

CONSTITUIÇÃO
Na entrevista concedida ontem ao jornal O LIBERAL REGIONAL, Gomes da Silva falou sobre os 30 anos da atual Constituição Federal, celebrados nessa sexta-feira e que coincidiram com a proximidade da eleição deste ano.
A democracia, que, amanhã, levará milhões de brasileiros às urnas para escolher seu presidente, é a maior conquista proporcionada pela Carta Magna. “Quanto a estar ameaçada (a democracia), não vejo perigo”, diz ele.
E prossegue: “Acredito que, embora existam vozes difusas reivindicando a instalação de regime forte ou até autoritário, a sociedade civil amadureceu e entende que, apesar de a República demonstrar seus flagelos e ainda não ser o ideal esperado, a democracia ainda é o melhor caminho para um povo atingir seus objetivos”. Segundo ele, esse intenso debate público a respeito de diferentes demandas só acontece graças à democracia.
O professor ressalta que, apesar de terem ocorrido avanços quanto ao sistema de escolhas e participação popular nas eleições, do ponto de vista da concretização da cidadania, alguns pontos poderiam ser aprofundados na Constituição. Dentre os quais, Gomes da Silva cita a proibição de deputados e senadores poderem se candidatar continuamente à reeleição. “Deveria haver um limite de mandatos de modo que desde o nível municipal até o federal não ocorressem perpetuações de clãs ou de chefes políticos locais, regionais, estaduais ou nacionais.”

ARNON GOMES
Araçatuba

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